As temperaturas mínima e máxima do ar em São Paulo (SP) aumentaram significativamente acima da média global nos últimos 125 anos. Esse aquecimento é intensificado pelo fenômeno da ilha de calor urbana, que ocorre devido à substituição da vegetação por materiais de construção como asfalto e concreto. A informação foi apresentada por Humberto Ribeiro da Rocha, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), durante o encontro “Eventos extremos de calor e água”, promovido pela Fapesp e pela Organização Neerlandesa para Pesquisa Científica (NWO) em 7 de maio, com divulgação feita pela Fundação em 15 de maio.
Desde 1900, a temperatura média global aumentou cerca de 1,2 °C, enquanto a máxima diária em São Paulo subiu 2,4 °C, com um aumento mais acentuado a partir de 1950. A temperatura mínima diária teve um incremento ainda maior, de 2,8 °C. Para entender essas variações regionais, pesquisadores do Centro para Segurança Hídrica e Alimentar em Zonas Críticas analisaram dados de satélites do programa Landsat, da NASA, coletados entre 2013 e 2025 em 70 cidades do estado.
Os dados revelaram que as superfícies urbanas na Grande São Paulo podem atingir até 60 °C no verão, uma temperatura semelhante à encontrada em grandes galpões industriais. Em contraste, as áreas mais frias, que possuem corpos d’água e maior cobertura vegetal, registram temperaturas máximas de 25 °C. O estudo indicou que a diferença térmica entre as zonas urbanas mais quentes e as mais frias varia de 7 °C a 12 °C durante o verão. Rocha observou que a concentração das ilhas de calor é maior na região nordeste do estado, onde há cultivo em larga escala de cana-de-açúcar, e em algumas cidades da Região Metropolitana de São Paulo, onde as áreas mais quentes coincidem com as de maior densidade populacional. O fenômeno também é observado em pequenas cidades.
Complementando a análise, o projeto municipal “Sampa Adapta” começou a medir a temperatura do ar diretamente nas ruas e dentro de residências e escolas. A pesquisa, que avaliou dados de 25 estações locais e da rede do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE), constatou que as tardes durante ondas de calor apresentam temperaturas entre 30 °C e 34 °C. À noite, por volta das 22h, os termômetros podem marcar 28 °C, o que é preocupante, pois é nesse horário que muitas pessoas vão dormir. Rocha destacou que várias edificações carecem de isolamento térmico adequado, fazendo com que se comportem como fornos aquecidos que retêm calor.
Por outro lado, experimentos urbanos mostraram que a implementação de soluções baseadas na natureza, como a revegetação, pode criar um “efeito oásis”, resfriando o ambiente local em até 7 °C em comparação com áreas totalmente urbanizadas. A urgência de ações de adaptação nas cidades foi enfatizada por Thelma Krug, membro do Conselho Superior da Fapesp e ex-vice-presidente do IPCC, que alertou sobre cenários que podem levar a um aquecimento global superior a 1,5 °C neste século. Krug afirmou que a influência humana no aquecimento é clara e rápida, e que sem essa influência não seria possível explicar as mudanças observadas desde 1950. Ela também mencionou que o painel lançará, em 2027, um relatório focado no contexto urbano.
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