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Caso banco Master teve espionagem e teia de 216 fundos e 143 empresas

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Espiões contratados por Daniel Vorcaro estavam cientes desde 23 de julho do ano passado de que investigadores se aproximavam de uma solução para as fraudes relacionadas à tentativa de aquisição do Master pelo BRB (Banco de Brasília). Naquela data, hackers conseguiram acessar toda a documentação do caso armazenada no computador do procurador Gabriel Pimenta, que liderava a investigação criminal do MPF (Ministério Público Federal) contra o proprietário do Master. Apenas Pimenta tinha acesso aos arquivos, que foram parar no celular do ex-banqueiro no dia seguinte.

O acesso não autorizado foi descoberto pelo procurador poucos dias após uma varredura nos sistemas do MPF, mas a espionagem continuou. Apesar do nível 5, o grau máximo de sigilo adotado pela Justiça, Vorcaro também soube antecipadamente que o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, havia assinado, por volta das 15h de 17 de novembro, o pedido de prisão dele na primeira fase da operação Compliance Zero, que investigou a venda de R$ 12,1 bilhões em carteiras de crédito para o BRB. O vazamento da operação levou a um contra-ataque da equipe de Vorcaro, descrito por investigadores como um enredo de filme policial. A estratégia final de Vorcaro para evitar a prisão seria fugir do país.

Enquanto tentava obter autorização dos órgãos de controle do tráfego aéreo para um voo para Malta, sua defesa protocolou uma petição ao juiz solicitando a revogação de qualquer medida cautelar que pudesse impedir sua prisão. No final da tarde, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Master, que, segundo investigadores, era apenas uma manobra para facilitar a fuga de Vorcaro.

Mais cedo, entre 13h30 e 14h10, Vorcaro participou de uma videoconferência com Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, e com Belline Santana e Paulo Sérgio de Souza, que eram chefe e adjunto do departamento de Supervisão Bancária, respectivamente. Ambos foram afastados do banco e estão sendo investigados por suposta consultoria informal ao ex-banqueiro. Durante a reunião, Vorcaro discutiu iniciativas para evitar a liquidação do banco, mencionando a possibilidade de vender a instituição a investidores estrangeiros e informando que viajaria a Dubai para avançar nas negociações.

Essa conversa levantou suspeitas no Banco Central sobre um possível plano de fuga, especialmente porque Vorcaro havia solicitado a antecipação de um encontro que estava agendado para o final da semana. Enquanto isso, a Polícia Federal monitorava seus passos e identificou pelo menos três planos de voo. A defesa de Vorcaro negou qualquer tentativa de fuga, afirmando que ele estava indo a Dubai para se encontrar com compradores.

Investigadores acreditam que a existência de múltiplas rotas de fuga indica uma intenção de escapar do país, corroborada por mensagens trocadas entre Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como "Sicário". Mourão, identificado pela PF como o operador central de um grupo chamado "A Turma", coordenava atividades de obtenção de informações e monitoramento, além de uso de violência. Ele morreu em março, após uma tentativa de suicídio em uma cela da superintendência da PF em Minas Gerais, logo após ser preso na segunda fase da operação Compliance Zero.

A estratégia de Vorcaro falhou. Ele foi preso pela PF no aeroporto de Guarulhos na noite de 17 de novembro, enquanto o colegiado do Banco Central já havia aprovado a liquidação do Master, quase simultaneamente à assinatura do pedido de prisão pelo juiz. O anúncio da liquidação foi feito no dia seguinte, após o liquidante Eduardo Félix Bianchini entrar no prédio do Master em São Paulo. O Banco Central concluiu que o conglomerado enfrentava uma crise crônica de liquidez, que se agravou para uma situação insustentável. O relatório do BC ao TCU (Tribunal de Contas da União) destacou que estratégias de negócios inadequadas, graves irregularidades e a composição de ativos de baixa liquidez justificaram a adoção imediata de medidas saneadoras.

Funcionários antigos do Banco Central relataram à reportagem que nunca haviam visto tanta pressão sobre o órgão. Em depoimento à CPI do crime organizado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, mencionou um episódio que ocorreu antes da decisão de veto à operação com o BRB, em setembro. Ele recordou que, na semana da rejeição da compra, viu fotos do diretor do BC, Renato Gomes, espalhadas em pontos de ônibus, acusando-o de fazer um trabalho político ao vetar a aquisição.

Imagens com a foto de Gomes foram exibidas em painéis luminosos em Brasília, apontando-o como responsável por dificultar o negócio. O ex-senador Luiz Estevão afirmou que os painéis também exibiam reportagens jornalísticas. Na véspera da negativa, partidos do Centrão na Câmara assinaram um requerimento de urgência para um projeto de lei que permitiria ao Congresso destituir presidentes e diretores do BC. Esses movimentos resultaram em uma maior união no colegiado do BC, que inicialmente estava dividido. Essa fragmentação foi representada pelos diretores Aquino, que defendia a venda do banco, e Gomes, que era a favor de uma liquidação mais rápida.

No dia do anúncio da liquidação, o Master tinha apenas R$ 4,8 milhões em caixa, enquanto os vencimentos de CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) totalizavam R$ 48,6 milhões. Somando os vencimentos da semana, o passivo era de R$ 123,8 milhões. O banco de Vorcaro terminou com um déficit de liquidez imediato superior a 2.400%. O Banco Central informou ao TCU que a liquidação reduziu os custos para a sociedade e para o FGC (Fundo Garantidor de Crédito).

Procurada nos dias 9 e 10, a defesa de Vorcaro não se manifestou. As fraudes do Master envolviam pelo menos 216 fundos diferentes e 143 empresas, conforme levantamento da Folha, iniciado em janeiro deste ano. Um software especial foi utilizado para mapear as conexões, formando um sistema semelhante a um sistema solar. O fio dessa rede começou a ser puxado a partir de seis fundos da Reag, identificados como suspeitos pelo BC na investigação sobre o Master: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna, que juntos possuíam um patrimônio líquido de R$ 102,4 bilhões.

Esses fundos continham os ativos utilizados por Vorcaro para operar as fraudes, incluindo papéis podres do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) e créditos de carbono. Esses ativos, de difícil avaliação, eram considerados bilionários pelos fundos, o que resultava na valorização de suas cotas. O dinheiro obtido era reinvestido em outros fundos e empresas da rede de fraudes. Em um desses casos, os recursos foram utilizados para adquirir uma mansão de R$ 36 milhões, que Vorcaro utilizava em Brasília e que era frequentada por autoridades.


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