“Tudo era apenas uma brincadeira, e foi crescendo, crescendo, me absorvendo, e de repente…”, a Festa dos Palhaços do Rio Vermelho se transformou em uma tradição no calendário soteropolitano de festas do verão.
Diferente da história cantada por Peninha em ‘Sonhos’, a história dos Palhaços do Rio Vermelho tem uma continuação feliz, porque está longe de ter um final. E a relação com a música não é apenas uma piada, tudo realmente começou como uma brincadeira que foi crescendo.
A movimentação para salvaguardar tradições populares em Salvador segue a todo vapor, e após projetos de indicação envolvendo estilos musicais e outros fazeres culturais, a tentativa da Câmara Municipal de Salvador é de proteger e valorizar outra iniciativa 100% soteropolitana: dar a festa “Palhaços do Rio Vermelho” o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Salvador.
Foto: Fernando Naiberg/ Divulgação
Em entrevista ao Bahia Notícias, a servidora pública Lúcia Menezes, presidente do Instituto Artístico e Sociocultural Palhaços do Rio Vermelho, e uma das idealizadoras do movimento que completou 15 anos em 2025, falou sobre a festa, que teve início antes mesmo da folia arrastar mais de 15 mil pessoas pelas ruas do bairro.
“Em 86, quando a gente se juntou com o Rui Santana, que é meu irmão e foi o criador dessa festa, eram 20 pessoas, amigos, irmãos, na minha casa fazendo esse movimento, de sair fantasiado de palhaços na avenida. Passamos quatro anos assim, e foi crescendo, 20, 40, 80, 120 pessoas… Naquele momento eu falei: ‘Vamos dar uma segurada, porque já tá muito grande’.”
A festa surgiu na contramão do que o mercado pedia para o Carnaval. Era a época em que os abadás estavam estourando na avenida, e as fantasias, tradição de quem brincava a folia na rua, passou a ser “aposentada” pelo público.
Foto: Fernando Naiberg/ Divulgação
“Naquele momento a gente estava muito na contramão porque a fantasia já tinha sumido, os blocos de índios já não tinham mais tanta força, tudo estava acontecendo tipo um rolo compressor. Só que em 2010, quando a gente saiu de palhaço nos Mascarados, a gente viu que poderia ir além. Mas não pensávamos nunca que chegasse aonde chegou. Quando eu penso em, 5 mil, 8 mil, 10 mil pessoas, me dá um frio na barriga.”
Promovido pelo Instituto Artístico e Sociocultural Palhaços do Rio Vermelho, o desfile acontece sempre no penúltimo sábado antes do Carnaval, reunindo milhares de pessoas nas ruas do bairro com um cortejo gratuito, sem cordas e repleto de fantasias, cores, música e performances.
“Quando a gente começou, a festa atraía mais o pessoal +50. Hoje a gente atrai todas as gerações. Já tinha essa coisa lúdica da criança fantasiada, mas, esse ano, por exemplo, alguém colocou um pula-pula na quadra, tinha muitas crianças lá esperando a saída do desfile. Nosso movimento não foi proposital, foi algo espontâneo que as pessoas se identificaram com isso, com o som das marchinhas, com essa brincadeira que existe, com perna de pau, com malabares. Foi espontâneo e não existe nada melhor na vida do que você saber que você é responsável ou saber que você proporcionou uma coisa tão espontânea. E a espontaneidade, eu acho, é o que faz acontecer para mim.”
Foto: Ulisses Gama
Segundo Lúcia, a festa cresceu a ponto de trazer pessoas do interior do estado para participar do desfile.
“Nós temos coletivos e diversas outras manifestações do interior do estado que participam da festa. São mais de 500 pessoas trabalhando para colocar o movimento na rua, a gente tem pessoas envolvidas entre receptivo de ônibus, acompanhar para alimentação, local de se vestirem, onde estacionar os carros, as vans. Alguns são voluntários e outros já remunerados.”
Ao site, Lúcia pontua a importância da festa para a cultura baiana e para o turismo na capital, e como calendarizar o movimento consegue impactar na realização e consolidação da festa.
“Foi um salto grande que demos. A gente ser reconhecido como um movimento que agrega e que atende a demanda, a carência do que a sociedade, do que a comunidade precisa. A festa tem impacto cultural, além de fomentar o turismo, a economia. Não é só a brincadeira, nós movimentamos o comércio com a venda de fantasias, adereços, os ambulantes, os bares que estão lotados, então, se você somar tudo que está em volta desse movimento da gente, é realmente é muito forte sim.”
Com a inclusão da festa no calendário oficial de celebrações da capital baiana, e consequentemente a criação do Dia Municipal do Desfile dos Palhaços do Rio Vermelho, Lúcia entende que o movimento terá mais força para acontecer e ser organizado de uma forma que dê menos dor de cabeça e mais diversão para quem faz e quem curte.
Foto: Fernando Naiberg/ Divulgação
“São 15 anos de resistência, nós somos resistentes e como eu digo sempre eu não largo o osso. Eu estou desde o início e na luta, porque é uma batalha anual, é uma batalha grande para gente conseguir recursos, eu já botei muitas vezes no meu bolso, porque todo ano, tem essa ameaça de não sair. E fazendo parte do calendário oficial da Prefeitura, os recursos, a infraestrutura, a logística, passa a ter esse apoio municipal para acontecer. Não que eles vão pagar tudo, mas com isso, iremos receber uma ajuda de custo para a realização, o que é essencial.”
Ao ser transformado em Patrimônio Imaterial de Salvador, faz com que o movimento tenha garantido a salvaguarda do patrimônio; o respeito ao patrimônio cultural imaterial das comunidades, grupos e indivíduos envolvidos; a conscientização no plano local, nacional e internacional da importância do patrimônio cultural imaterial e de seu reconhecimento recíproco; e a cooperação e a assistência internacionais.
Para além da folia de verão, a presidente do Instituto Artístico e Sociocultural Palhaços do Rio Vermelho, afirma que a intenção do movimento é de “promover trabalhos sociais na área da educação, do esporte”. “Estamos com planos para capacitar as costureiras, e promover ações muito maiores do que só o entretenimento, que já é bacana, é, mas o social é carente, a gente precisa fazer.”
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