Todos os dias, o pequeno comércio se instala ao redor da estação Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo. Em meio ao movimento intenso, destaca-se a Casa Marx, um espaço cultural que abriga uma livraria, um sebo, um café e um brechó, com o objetivo de difundir o pensamento de esquerda. O local também é a sede do Faísca Revolucionária, um coletivo de jovens anticapitalistas que atua em 15 países.
Pedro Ferreira, de 26 anos e líder do grupo, explica que o termo "anticapitalista" reflete a insatisfação com um sistema que, segundo ele, não oferece mais esperança. Essa insatisfação é compartilhada por outros coletivos de jovens que se opõem ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e aos integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre), que têm o apoio de uma parte significativa da juventude. Ao mesmo tempo, esses jovens criticam o presidente Lula (PT) e se sentem desrepresentados pelos políticos que se apresentam como candidatos. O sentimento anticapitalista é um aspecto da revolta da geração Z, que se organiza em protestos ao redor do mundo.
O Faísca, vinculado ao MRT (Movimento Revolucionário dos Trabalhadores), foi criado há dez anos e é conhecido por promover oficinas de estudo sobre comunismo nas universidades. Seus membros se referem uns aos outros como "camarada" e utilizam o ChatMarx, um aplicativo de inteligência artificial com orientação marxista, em vez do ChatGPT. Noah Brandsch, de 21 anos e também líder do Faísca, busca alternativas ao governo Lula. Ele afirma que acreditar em mudanças dentro do sistema capitalista é uma utopia e que cabe à esquerda superar a conciliação de classes promovida pelo PT, que, segundo ele, fortaleceu a extrema direita.
A insatisfação com o governo também é sentida no Movimento Correnteza, uma organização estudantil criada há oito anos com o lema "organize a sua revolta", focada na luta pela educação. Thaís Rachel, de 32 anos, liderança do Correnteza e vice-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), prefere apoiar a candidata Samara Martins, do UP (Unidade Popular). Rachel destaca que os jovens estão subrepresentados na política, mencionando que, apesar de novas lideranças, o sistema eleitoral favorece apenas partidos tradicionais.
Nos últimos anos, a revolta da geração Z, que inclui jovens nascidos entre o final dos anos 1990 e 2010, gerou protestos em países como Peru, Bangladesh, Indonésia e Quênia. Embora cada um tenha suas próprias motivações, todos buscam mudanças no status quo e utilizam a bandeira do "One Piece", um mangá que retrata a luta contra sistemas opressivos. Nos Estados Unidos, o democrata Zohran Mamdani, de 34 anos, foi eleito prefeito de Nova York com o apoio da juventude, que se mobilizou em torno de uma plataforma socialista, com 78% dos eleitores abaixo de 30 anos votando nele. No Brasil, a realidade é diferente, pois a esquerda anticapitalista é uma minoria entre os jovens.
Uma pesquisa da Atlas Intel, divulgada em dezembro, revelou que 52% da geração Z se identifica como de direita ou centro-direita. Deputados como Nikolas Ferreira (PL) e Kim Kataguiri, do MBL, têm forte conexão com esse eleitorado, que adota noções de meritocracia, empreendedorismo e um certo desprezo pela CLT, tema que ganhou destaque nas redes sociais, especialmente no TikTok. Theo Lobato, de 30 anos e líder do coletivo Juntos!, observa que as redes de Nikolas Ferreira são usadas para promover sua imagem, mas não para fomentar uma organização coletiva duradoura. Ele expressa preocupação com a crise climática, o avanço tecnológico e a precarização do trabalho. Lobato, que se juntou ao Juntos! há uma década, participou da COP30 em Belém em novembro. Julia Andrade Maia, de 27 anos e também militante do Juntos!, acredita que a direita é mais eficaz na internet devido ao seu poder econômico, em um cenário de crise de representatividade na esquerda. Embora considere votar em Lula, ela não se identifica com o símbolo do petista.
Na quarta-feira, 25, o Juntos! organizou um debate no campus da USP com o tema "Os Povos do Mundo Contra Os Imperialismos: A Luta Antifascista e Antirracista para Salvar o Planeta". O evento contou com a presença do professor de filosofia da USP, Vladimir Safatle, da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), da codeputada estadual Ana Laura (PSOL-SP) e do filósofo Douglas Barros. Cerca de cem calouros de ciências humanas assistiram ao debate. Bomfim, de 36 anos, enfatiza a necessidade de a esquerda apresentar uma alternativa ao capitalismo, lembrando que, em sua época de militância estudantil, a extrema direita não era uma preocupação.
O evento destacou a proposta ecossocialista do coletivo, com estudantes e palestrantes abordando questões urgentes, como o avanço da inteligência artificial, a crise do capitalismo, a identidade e as formas contemporâneas de colonialismo. A Palestina se tornou um tema central para a geração Z anticapitalista, que vê Gaza como um bairro de São Paulo. Pedro Antônio Chiquitti, de 21 anos e organizador do evento, afirma que a solidariedade internacional é fundamental, pois o povo palestino enfrenta genocídio, uma realidade reconhecida por todos.
Vladimir Safatle, que lança o livro "A Ameaça Interna", ressalta que os coletivos progressistas devem criar uma nova linguagem para a esquerda. Ele observa que muitos produtos da indústria cultural abordam realidades distópicas, refletindo o sofrimento psíquico da geração Z. Safatle alerta que um jovem de 18 anos pode não ter condições adequadas de vida garantidas para quando completar 40 anos, questionando se esse jovem terá ar limpo para respirar no futuro.
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