A fuga de 16 detentos do Conjunto Penitenciário de Eunápolis, localizado no Extremo Sul da Bahia, foi planejada ao longo de 40 dias, utilizando visitas privilegiadas, escavações nas celas e uma operação armada. As informações foram obtidas pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) através do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), com base na delação de Joneuma Silva Neres, ex-diretora do presídio.
O Bahia Notícias teve acesso ao depoimento da ex-diretora, que revela detalhes sobre a rede criminosa entre outubro e dezembro, envolvendo o ex-deputado Uldurico Júnior, do MDB, e Ednaldo Pereira Souza, conhecido como "Dada", líder da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE). Segundo a delação, a fuga, que ocorreu em 12 de dezembro de 2024, foi um projeto "encomendado" por Dada, com um custo de R$ 2 milhões, referidos como "duas rosas".
Uldurico Júnior foi preso em 14 de dezembro de 2024, durante a Operação Duas Rosas, que investiga corrupção eleitoral, organização criminosa e outros crimes na Bahia. A operação também está relacionada a uma aliança entre Uldurico e líderes de facções criminosas, como Ednaldo Souza, enquanto ele era candidato à prefeitura de Teixeira de Freitas.
As provas coletadas pelo MP-BA indicam que a influência política de Uldurico no presídio começou com a indicação de Joneuma para a direção da unidade. O ex-deputado realizava reuniões secretas com Ednaldo, o que sugere um canal de comunicação direto entre eles. Essa relação possibilitou a concessão de regalias a Uldurico e aos líderes do PCE, incluindo acesso a eletrodomésticos, refeições diferenciadas e visitas íntimas.
As visitas ao presídio também apresentaram características incomuns, como um velório realizado no local, onde foi solicitado o serviço de uma baiana de acarajé. O corpo velado pertencia à avó de Sirlon Risério da Silva, braço direito de Ednaldo no PCE. A Defensoria Pública da Bahia, que representa Joneuma, afirmou que a ex-diretora considerou a entrada do caixão uma atitude humanitária.
Os documentos da operação delineiam a linha do tempo da negociação entre Uldurico e Ednaldo, que começou em outubro de 2024. Uldurico, após perder a eleição, buscou Joneuma para aumentar o contato com Ednaldo, alegando necessidade urgente de dinheiro. A primeira negociação formal ocorreu em 2 de novembro, durante uma ligação entre Dada e Uldurico, mediada por uma pessoa de confiança do líder da facção.
A partir desse ponto, a trama da fuga se intensificou. Os detentos foram concentrados nas celas 44 e 45 do pavilhão B, onde tinham liberdade de movimento e permissão para a entrada de materiais clandestinos. Utilizando uma furadeira, os presos escavaram o teto da cela 44 com o conhecimento de Joneuma. Apesar de denúncias sobre a atividade, a ex-diretora aguardou a conclusão da escavação antes de agir.
A fuga, inicialmente programada para 31 de dezembro, foi antecipada após Ednaldo receber informações sobre uma possível intervenção na unidade. A operação, que envolvia a fuga de Dada e outro membro da facção, acabou resultando na libertação de 16 detentos. Na noite de 12 de dezembro, nove membros externos do PCE escalaram os muros do presídio e dispararam em direção às torres de vigilância por mais de dez minutos, armados com fuzis. Após a fuga, os detentos se deslocaram para o Rio de Janeiro, onde estariam sob a proteção do Comando Vermelho, uma organização criminosa parceira do PCE.
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