A disputa entre a governadora Raquel Lyra e o prefeito do Recife, João Campos, pelo governo de Pernambuco em 2026 se apresenta como um cenário interessante para analisar a produção e a conversão do capital político em apoio eleitoral nas redes sociais. Um estudo da LABCaos, agência especializada em marketing político, revela que dados do Instagram e buscas na internet ajudam a entender a política como um ecossistema de atenção, engajamento e reputação. A pesquisa destaca que visibilidade não é sinônimo automático de apoio, e o volume de interações não necessariamente se traduz em mobilização.
As pesquisas do Datafolha e Real Time Big Data mostram João Campos na liderança da corrida, com chances de vencer no primeiro turno, enquanto Raquel enfrenta níveis mais altos de rejeição. No entanto, a análise das audiências digitais indica uma dinâmica mais complexa. A partir de agosto de 2025, com a intensificação da disputa, a governadora registra uma taxa de engajamento três vezes maior que a do prefeito, alterando a relação entre quem mais se comunica e quem mais mobiliza sua base nas redes sociais. Nesse contexto, a política conectada se transforma em uma disputa por densidade relacional, onde o foco é converter seguidores dispersos em comunidades ativas.
Os dados de volume de buscas revelam a tensão entre visibilidade e controvérsia. João Campos apresenta maior interesse no Google nos últimos 90 dias, associado a termos como “impeachment” e outros temas polêmicos, sugerindo uma atenção frequentemente marcada por conflitos. Em contraste, Raquel é mais buscada em relação a questões partidárias e de gestão, indicando um interesse mais informativo e menos centrado em escândalos. Teoricamente, isso representa duas formas de atenção: uma quente, volátil e alimentada por polêmicas, e outra morna, mas potencialmente mais estável, baseada em atributos de governança.
No Instagram, a assimetria de audiência é clara. João Campos, com quase o dobro de seguidores, acumula mais de 24 milhões de interações, superando os 20,4 milhões de Raquel. Contudo, ao considerar métricas relacionais, como taxa de engajamento e crescimento de base, o cenário se torna mais complexo. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, Raquel aumentou sua base em mais de 437 mil seguidores, representando um crescimento de 42%, enquanto João teve um acréscimo de 106 mil seguidores, equivalente a 3,7%. Isso indica que a governadora está em fase de expansão, enquanto o prefeito enfrenta saturação, com uma base grande, mas com crescimento limitado e picos de perda, sugerindo desgaste.
A diferença de engajamento também reforça essa análise. Raquel apresenta uma taxa de 4,1%, com uma média de 856 comentários por post e 3,9 conteúdos diários, enquanto João tem uma taxa de 2,1%, com 850 comentários por post e 3,1 conteúdos diários. Isso demonstra que a governadora gera mais respostas e cresce mais rapidamente.
Outro aspecto importante é a geografia do engajamento. Cerca de 35% das interações de João ocorrem no Recife, enquanto Raquel tem 20% de seu engajamento na capital, o que indica uma presença mais distribuída pelo estado. Essa diferença é estratégica em disputas eleitorais, pois um candidato que concentra sua força na capital pode ter dificuldades em converter esse apoio em votos no interior, enquanto uma presença mais ampla pode favorecer narrativas de governança.
A análise dos conteúdos mais eficazes, todos em formato de reels, destaca a importância da dimensão afetiva na política digital. Conteúdos que humanizam os candidatos, como aqueles que ligam João a Lula e os que associam Raquel à gestão, são os que mais se destacam. Isso confirma que a competição não se limita a políticas públicas, mas envolve a capacidade de representar identidades, como o “prefeito próximo de Lula” e a “governadora gestora”, que moldam percepções eleitorais.
A disputa em Pernambuco também pode ter repercussões nacionais, especialmente em relação ao posicionamento do presidente Lula diante de dois palanques potencialmente competitivos. Um eventual palanque duplo ou uma postura neutra pode reorganizar alianças e antagonismos nas redes, complicando a relação entre o governo estadual e a prefeitura da capital. Em um cenário onde métricas de engajamento e crescimento de seguidores influenciam decisões estratégicas de campanha, desconsiderar esses dados significa perder a oportunidade de entender a distribuição do capital político na esfera digital.
Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em campanhas eleitorais.
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