Lotes de imunoglobulina adquiridos por uma fornecedora do Ministério da Saúde e interditados pela Anvisa foram entregues à Insight Participações S.A., uma empresa sob investigação por suspeitas de ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro. A imunoglobulina, derivada do plasma sanguíneo, é indicada para pacientes com o sistema imunológico comprometido, incluindo casos relacionados ao HIV. O produto deveria ser exportado para a China, mas atualmente está no Panamá e perderá a validade entre junho e julho deste ano.
A distribuidora Farma Medical, contratada pelo ministério para fornecer a droga ao Sistema Único de Saúde (SUS), declarou não saber o destino da carga. A empresa informou que repassou a imunoglobulina à Insight para quitar uma dívida de aproximadamente R$ 30 milhões. O Ministério da Saúde, por sua vez, afirmou que a Farma Medical foi a responsável pelo processo de exportação e que os lotes não podem retornar ao Brasil. A pasta ressaltou que não é sua função fiscalizar ou acompanhar a movimentação da carga após sua saída do país.
A Farma Medical havia tomado um empréstimo de R$ 30 milhões com a Insight para adquirir o primeiro lote da imunoglobulina destinada ao SUS. O contrato totalizava R$ 87,63 milhões, mas o ministério decidiu cancelar o acordo após a Anvisa interditar o produto em outubro de 2023. O governo federal não efetuou pagamentos pelo medicamento.
Em setembro de 2024, a Farma Medical assinou um "termo de quitação" do débito, cedendo a propriedade e os direitos da carga à Insight. O documento permitiu que a empresa tomasse as medidas necessárias, incluindo interações com a Anvisa e o ministério, para a exportação do remédio. Himad Abdallah Mourad, fundador e diretor da Insight, também assinou o termo. Ele e a empresa foram alvo de busca e apreensão na Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, que investigou a atuação do PCC na economia formal. Himad é primo de Mohamad Hussein Mourad, foragido e apontado como um dos líderes da organização criminosa. Em outubro, Himad foi alvo da operação Octanagem, um desdobramento da Carbono Oculto, que investigou postos de combustível suspeitos de envolvimento em adulteração de gasolina e lavagem de dinheiro.
A reportagem não conseguiu localizar Himad, e a Insight não respondeu a e-mails enviados desde quarta-feira (25) solicitando manifestação. Documentos obtidos pela Folha indicam que a distribuidora Star Pharma, atual fornecedora de insulina do SUS, participou do processo de exportação da imunoglobulina da Farma Medical, realizando cotações de embarque em 2025, após a Insight ter recebido os direitos da carga. No entanto, a documentação do Ministério da Saúde sobre a saída do produto do Brasil não menciona a Insight ou a Star Pharma, apenas a Farma Medical.
A Declaração Única de Exportação, que tem o ministério como exportador, indica a China como destino final. Uma fonte que acompanhou o trâmite da exportação afirmou que os lotes deveriam ser enviados para a China, onde a imunoglobulina foi produzida, mas o país não autorizou a entrada da carga. Assim, todo o medicamento foi levado ao Panamá, onde permanece, conforme documento obtido pela reportagem. Outras quatro pessoas que acompanharam o processo afirmaram que a Star Pharma conduziu a exportação em nome da Insight, utilizando a estrutura da Farma Medical apenas para responder formalmente ao ministério.
A Star Pharma, em nota, afirmou que atuou na operação por meio de Emanuela Medrades, atual sócia da empresa, oferecendo suporte técnico pontual na avaliação de alternativas regulatórias e logísticas para a carga, dentro da legalidade. Os cerca de 31 mil frascos, avaliados em R$ 30 milhões, permaneceram no estoque do Ministério da Saúde de outubro de 2023 até março de 2025, quando a carga deixou o país.
A Anvisa inicialmente determinou a destruição do produto, que havia chegado ao Brasil sem o controle adequado de temperatura. O medicamento, sendo um produto biológico, deve ser mantido entre 2°C e 8°C durante todo o transporte. Contudo, a agência aceitou o pedido da empresa para que a carga fosse devolvida ao fabricante chinês, o laboratório Harbin Pacific, com a justificativa de que os lotes poderiam ser substituídos ou ressarcidos.
A imunoglobulina destinada ao SUS não tinha registro na Anvisa. O ministério optou por essa compra excepcional, alegando a falta de oferta da indústria regularizada no Brasil. A Farma Medical não possuía contratos anteriores com o ministério e foi selecionada por meio de um chamamento público emergencial para evitar desabastecimento. A empresa representava a Prime Pharma LLC, dos Emirados Árabes, que receberia o pagamento no exterior.
Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que todo o processo de devolução foi conduzido com a Farma Medical, representante da Prime Pharma LLC. A pasta informou que o valor pago pelo governo para armazenar o produto no armazém da Saúde em Guarulhos está em processo de restituição, mas não especificou o montante. O ministério também declarou que atua com rigor na fiscalização e que aplicou uma multa de US$ 1,69 milhão na Prime Pharma LLC, sem informar se o valor já foi quitado.
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