Durante a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicou que Cuba pode ser o próximo alvo de sua política externa. Em março, ele afirmou: "Cuba é a próxima", repetindo a declaração mesmo após pedir que os repórteres a ignorassem. Embora não tenha detalhado suas intenções em relação à ilha, as ameaças se intensificaram, culminando na ampliação das sanções contra o regime cubano em 1º de maio. Essas novas medidas visam indivíduos e entidades que apoiam o aparato de segurança do governo cubano ou que estão envolvidos em corrupção e graves violações dos direitos humanos.
Trump já declarou que seria uma "honra tomar Cuba". O país, que enfrenta um embargo americano há décadas, tem enfrentado restrições ainda mais severas nos últimos meses, levando o regime a expressar preocupação e a se preparar para o pior cenário, sem entrar em detalhes. Ricardo Zúniga, ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional durante o governo de Barack Obama, afirmou que a ideia de uma intervenção militar americana não se sustenta. Ele argumenta que Cuba é um país nacionalista e que tanto o governo quanto a oposição não desejam uma ocupação americana. Além disso, Zúniga destaca que não há interesse real da sociedade americana em tal ação, considerando-a isolada e equivocada.
Zúniga questiona a necessidade de endurecer as sanções, uma vez que Cuba já foi bastante enfraquecida. Ele considera que transformar o país em uma situação semelhante à do Haiti não faz sentido, especialmente por ser um vizinho próximo dos Estados Unidos. Localizada a cerca de 150 km da Flórida, Cuba enfrenta sua pior crise humanitária em décadas, com apagões frequentes devido a uma infraestrutura deteriorada. A situação se agrava com o veto ao comércio de petróleo, imposto por Trump após a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro em janeiro. Os cubanos têm enfrentado apagões de até 20 horas diárias, fechamento de hotéis, cancelamento de voos e suspensão de serviços básicos.
O modelo econômico cubano, segundo Zúniga, "fracassou completamente", uma realidade reconhecida até por aliados do regime. Ele afirma que não há perspectiva de futuro dentro desse modelo e que as sanções dos EUA agravam a situação, já que visam prejudicar a economia. Essa combinação resultou em cerca de 90% da população vivendo em pobreza extrema. Especialistas acreditam que qualquer ação militar poderia ter um efeito contrário ao desejado, provocando uma nova onda migratória em direção aos Estados Unidos. Zúniga concorda e alerta que isso poderia abrir espaço para o crime organizado em um possível vácuo de poder, representando um grande risco.
O ex-conselheiro destaca que, embora líderes anteriores tenham lidado com os desafios econômicos de Cuba, a situação atual é de outra magnitude. Ele considera o bloqueio ao fluxo de petróleo uma medida desnecessária, com consequências diretas para a população mais vulnerável. O colapso do sistema energético cubano, agravado pela pressão adicional, recai diretamente sobre os cidadãos, podendo causar mortes, especialmente em hospitais. Zúniga argumenta que, se a intenção é melhorar a vida das pessoas, esse tipo de medida não faz sentido. Ele acredita que os Estados Unidos estão em uma posição forte o suficiente para negociar sem recorrer a pressões extremas, tornando o bloqueio petrolífero cruel e estrategicamente desnecessário. Para ele, a prioridade deve ser a negociação, não a intimidação.
Zúniga afirma que Havana precisa implementar reformas concretas, como abertura econômica, libertação de presos políticos e maior espaço para a imprensa independente. Ele defende que as pressões devem focar na abertura econômica, permitindo que a população resolva seus próprios problemas e reduzindo o controle estatal centralizado. Essa abordagem, segundo ele, naturalmente levaria a mudanças políticas. O ex-conselheiro também pede uma autocrítica do regime cubano, ressaltando que a cúpula do governo precisa entender que, sem reformas profundas, o país continuará em uma situação terrível. Para Zúniga, será necessário que o regime abra mão do controle absoluto.
Ele explica que isso não implica uma mudança imediata de regime, mas sim reformas estruturais que criem as bases para uma sociedade democrática mais bem-sucedida, começando pela economia. O Estado deve aceitar perder o controle total sobre os investimentos e permitir maior abertura. O futuro de Cuba, segundo ele, depende dos cubanos, não dos Estados Unidos. No entanto, o tom beligerante adotado por Trump pode produzir o efeito oposto ao de estimular reformas. Ao reativar o discurso de ameaça externa, a retórica americana pode fortalecer a ala mais dura do regime cubano, dificultando negociações e reformas.
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