O ministro André Mendonça, supervisor de inquéritos que podem envolver parlamentares e outras autoridades com foro no Supremo Tribunal Federal, tem adotado uma estratégia de fragmentação das investigações. O objetivo é evitar vazamentos tanto dentro da Polícia Federal quanto por parte dos advogados envolvidos. Mendonça propõe que as apurações tenham coordenadores, mas que as informações permaneçam compartimentadas entre os investigadores. As investigações são conduzidas por diferentes integrantes da PF, que coletam informações, realizam depoimentos, executam medidas e deflagram operações.
Mendonça tem afirmado a interlocutores que essa abordagem visa preservar as investigações e a própria Polícia Federal, além de organizar os procedimentos das apurações. Essa estratégia é atribuída à sua experiência em setores que lidam com informações sensíveis. Antes de assumir o cargo no STF, ele foi ministro da Justiça e chefe da Advocacia-Geral da União durante o governo Jair Bolsonaro. Durante sua gestão na AGU, Mendonça criou um laboratório para análise de dados sigilosos de réus e coordenou equipes de acordos de leniência, sem ter acesso direto a essas informações.
Desde outubro, ele conta com a assistência de um delegado da Polícia Federal emprestado ao seu gabinete, que auxilia em casos criminais e oferece sugestões sobre os trabalhos. A divisão das apurações em diferentes procedimentos impede que a defesa de um investigado tenha acesso a informações de outros alvos. Mendonça também proibiu que a cúpula da PF e outras pessoas hierarquicamente superiores aos delegados do caso Banco Master tenham acesso aos inquéritos, reduzindo assim o risco de interferências nas investigações. Essa foi uma das primeiras medidas que tomou ao assumir a relatoria da investigação em fevereiro.
O ministro já se reuniu pelo menos três vezes com as equipes responsáveis pelo caso Master para definir a dinâmica das apurações e acompanhar o andamento do processo. Desde agosto, ele é relator do caso que investiga suspeitas de fraudes no INSS. Com a saída de Dias Toffoli da relatoria do caso Master, Mendonça foi sorteado como novo condutor do processo. Ao assumir os inquéritos do banco, ele deixou claro que daria maior independência aos investigadores e restringiria o acesso às informações. Em uma decisão, afirmou que apenas aqueles diretamente envolvidos nas apurações deveriam ter acesso a elas, em respeito aos princípios de sigilo e funcionalidade.
Atualmente, existem quatro inquéritos relacionados ao caso Master. As duas principais investigações foram abertas por delegados de diferentes estados. Em Brasília, apura-se a primeira fase da Operação Compliance Zero, que resultou na prisão do banqueiro Daniel Vorcaro em novembro. Essa investigação trata da tentativa de compra do Master pelo Banco de Brasília. Outro inquérito, aberto por equipes de São Paulo, está relacionado à segunda fase da Compliance Zero, deflagrada em janeiro, que investiga suspeitas de fraudes por meio de fundos de investimento, envolvendo empresários.
Embora as investigações sejam conduzidas por delegados distintos, a direção da PF designou um delegado para coordenar as duas equipes. No entanto, o juiz de São Paulo não decidiu sobre o caso, e não houve ações conjuntas. Além dos quatro inquéritos, há desdobramentos, como o caso no Rio de Janeiro, que investiga supostos crimes contra o sistema financeiro envolvendo recursos do Rioprevidência, o fundo de aposentadorias e pensões dos servidores do estado. O órgão é investigado pela aquisição de letras financeiras do banco, que são títulos de renda fixa sem garantias do Fundo Garantidor de Créditos.
No caso do INSS, a investigação é ainda mais fragmentada, com múltiplos focos ligados a associações que atuavam no esquema. A atuação do gabinete de Mendonça nas investigações nem sempre é bem recebida por advogados que defendem os casos Master e INSS. Uma das queixas recorrentes é que muitos pedidos ficam sem apreciação do ministro ou são retidos no gabinete, sem serem enviados à Procuradoria-Geral da República para manifestação. Já ocorreram vazamentos de informações sigilosas em alguns casos, levando advogados a solicitarem investigações ao ministro. Um exemplo é a defesa da empresária Roberta Luchsinger, investigada no caso do INSS, que pediu a Mendonça a apuração de vazamentos à imprensa sobre movimentações e pagamentos realizados por ela.
Mendonça já instaurou pelo menos uma investigação sobre suspeitas de vazamentos, a pedido da defesa de Vorcaro. Ele determinou a abertura de um inquérito para apurar como mensagens do celular do ex-dono do banco, compartilhadas com a CPI do INSS, foram divulgadas.
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