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Moderação alardeada por Flávio esbarra em projeto bolsonarista e no seu passado político

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Datafolha: Flávio Bolsonaro tem o dobro de Lula entre evangélicos

O perfil de político moderado que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta construir apresenta um desafio para sua pré-candidatura à Presidência. Seus aliados destacam as diferenças em relação ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que foi condenado por golpe de Estado. Eles acreditam que o estilo menos histriônico de Flávio pode ampliar seu eleitorado. Por outro lado, especialistas em extrema direita alertam que essa estratégia é limitada, pois sua pré-candidatura está inserida em um projeto autoritário e seu histórico político está vinculado à visão bolsonarista. A esquerda já começou a trabalhar para desconstruir a imagem que o senador tenta promover.

Aliados de Flávio, que preferem não se identificar, afirmam que a moderação pode reduzir sua rejeição, considerando-o uma pessoa "dócil e equilibrada". Uma pesquisa Datafolha recente mostra que Flávio e Lula estão empatados tecnicamente em termos de rejeição, com 46% para o petista e 45% para o senador. O objetivo é deixar claro que Flávio é Flávio e Jair é Jair. Com essa moderação, seus apoiadores não temem perder o núcleo duro do bolsonarismo, pois consideram Flávio um Bolsonaro legítimo.

Há também a percepção de que as rejeições enfrentadas pelos dois pré-candidatos têm origens diferentes. A rejeição de Lula estaria consolidada desde o início de seu terceiro mandato, enquanto Flávio herdaria a reprovação do pai, o que poderia ser revertido durante a campanha. Os apoiadores de Flávio não veem contradição em adotar um discurso rigoroso sobre segurança pública enquanto se mostram sensíveis a pautas sociais. Eles afirmam que a maioria da população concorda com a frase "bandido bom é bandido morto".

Na semana passada, Flávio manifestou apoio à redução da maioridade penal para 14 anos e defendeu a castração química para estupradores. Desde o final do ano passado, ele se apresenta como moderado em reuniões com o setor privado em São Paulo, incluindo um almoço na sede do banco suíço UBS e outro na casa do empresário Gabriel Rocha Kanner, sobrinho de Flávio Rocha, dono da Riachuelo. Essa estratégia logo se refletiu nas redes sociais, com postagens voltadas a grupos minorizados.

No Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, Flávio publicou um vídeo defendendo a ampliação do número de vagas em creches. No mês anterior, fez outro vídeo condenando os ataques racistas sofridos pelo jogador Vinicius Jr., do Real Madrid. Ele também republicou uma ilustração gerada por inteligência artificial, onde recebe um beijo de um rapaz, acompanhada de uma mensagem que sugere respeito à liberdade sexual e de gênero. A postagem questionava se alguém já havia ouvido Flávio fazer uma declaração homofóbica.

Em 2016, ao se candidatar à Prefeitura do Rio de Janeiro, Flávio tentou adotar uma tática semelhante, apresentando-se como uma versão polida do pai, mas terminou em quarto lugar, sem chegar ao segundo turno, que foi vencido por Marcelo Crivella, do PRB (atualmente Republicanos). Cientistas políticos afirmam que "bolsonarismo" e "moderação" são conceitos opostos. Odilon Caldeira Neto, professor da UFJF, afirma que a expressão "bolsonarismo moderado" é uma contradição, já que o bolsonarismo se fundamenta na radicalização.

Neto observa que a busca pelo centro é essencial para a pré-candidatura, mas a eficácia dessa retórica dependerá de fatores como alianças e a recepção entre formadores de opinião. Mayra Goulart, professora da UFRJ, destaca que Flávio enfrenta limitações, pois sua identidade como filho de Bolsonaro está ligada ao extremismo. Ela explica que o bolsonarismo se distingue da direita moderada por atacar instituições, defender o patriarcado e adotar uma definição de democracia que exclui o liberalismo.

Thaís Pavez, diretora da Pesquisa Latina Consultoria, menciona que o bolsonarismo moderado já falhou, citando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que foi preterido na disputa pelo Planalto. Ela acredita que será difícil conciliar as demandas da base bolsonarista com a imagem de moderado, especialmente com Flávio mais exposto durante a campanha. A cúpula do governo, atenta à estratégia de Flávio, alterou seu discurso na última semana, passando a desconstruir a imagem moderada que o senador tenta promover.

Adriano Gianturco, professor de ciência política do Ibmec, discorda da visão de outros especialistas e acredita que um bolsonarismo moderado pode surgir. Ele argumenta que é comum que movimentos políticos comecem de forma radical e, com o tempo, suavizem suas propostas. Gianturco afirma que existem diferentes formas de bolsonarismo e que a maioria dos eleitores de Bolsonaro pode não se identificar como bolsonaristas.

Ao longo de sua trajetória política, Flávio sempre defendeu a visão de mundo de seu pai. Como deputado estadual no Rio de Janeiro por quatro mandatos, ele condecorou o ex-PM Adriano da Nóbrega com a medalha Tiradentes em 2005. Nóbrega, suspeito de homicídio, recebeu a honraria enquanto estava preso e morreu em uma troca de tiros com a polícia na Bahia, segundo a versão oficial. Em 2016, Jair Bolsonaro se tornou um frequentador assíduo de programas de TV, onde fez declarações polêmicas sobre seus filhos e a educação que receberam. Flávio defendeu o pai, criticando o politicamente correto, e minimizou a homenagem feita ao Coronel Brilhante Ustra, torturador da ditadura, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff.

Flávio tem se dividido entre a pré-campanha e a defesa do pai, que enfrenta pedidos de anistia. Em uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, ele negou a tentativa de golpe de Estado ocorrida em 8 de janeiro de 2023. Flávio comparou a narrativa de tentativa de golpe a um "crime impossível", questionando a plausibilidade de um ato de vandalismo resultar em uma tomada de poder.

No ano passado, antes de ser considerado o herdeiro político de Bolsonaro, Flávio afirmou à Folha que o candidato da direita deveria se comprometer a indultar o ex-presidente, se necessário, usando a força para evitar qualquer reação do STF. Ele negou ter adotado um tom ameaçador, explicando que estava apenas analisando um cenário. Gabriela Zancaner, professora de direito constitucional da PUC-SP, classificou essa fala como golpista, ressaltando a separação de poderes prevista na Constituição.


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