As bets chegaram ao Brasil sendo apresentadas como entretenimento e uma oportunidade de ganhar dinheiro. Mas, para muitas pessoas, o que começou como diversão terminou em endividamento, perda de patrimônio, conflitos familiares e desespero. Quando o jogo deixa de ser uma escolha e passa a dominar a vida de alguém, já não estamos falando apenas de entretenimento, mas de um grave problema social.
Falo também por experiência. Conheci pessoas que desenvolveram dependência dos jogos online e causaram enormes prejuízos às próprias famílias. Algumas chegaram a um nível tão extremo de endividamento e desespero que atentaram contra a própria vida por acreditar que não havia mais saída. É impossível conhecer histórias assim e permanecer indiferente.
Por isso, sou favorável à decisão do presidente Lula de acabar com as bets. A Medida Provisória nº 1.394/2026 foi publicada em 25 de setembro e já nasceu com força de lei. Desde então, estão proibidas a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa. No dia 6 de outubro, os sites e aplicativos de apostas começaram a ficar indisponíveis em todo o país. Espero, sinceramente, que essa medida seja aprovada pelo Congresso Nacional e convertida definitivamente em lei, para que essa proibição não seja apenas temporária. A MP ainda precisa ser analisada pela Câmara e pelo Senado para se tornar permanente.
Também considero necessário questionar a responsabilidade dos influenciadores que promovem as bets e lucram com as perdas de milhares de pessoas. Enquanto exibem ganhos, ostentação e uma falsa imagem de dinheiro fácil, muitas pessoas do outro lado da tela comprometem o dinheiro da família, acumulam dívidas e continuam apostando na esperança de recuperar o que perderam. Não considero razoável transformar a vulnerabilidade financeira das pessoas em fonte de enriquecimento para terceiros. Quanto vale um contrato publicitário quando o lucro de um lado representa o sofrimento de uma família do outro?
Bets não são apenas números em uma tela. Por trás de cada aposta perdida pode existir uma pessoa, uma família e uma história de sofrimento. O dinheiro perdido pode, um dia, ser recuperado. Uma vida, não. Por isso, defendo que essa discussão seja tratada acima de interesses econômicos: como uma questão de dignidade humana, proteção da família e preservação da vida.
DRª MARLENE REIS
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