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O mapa mundial do otimismo com a IA

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O mapa mundial do otimismo com a IA

A inteligência artificial (IA) tem gerado expectativas em larga escala, mas a distribuição de poder permanece desigual, conforme revela um estudo global da Anthropic, uma empresa americana de IA responsável pelo modelo de linguagem Claude. A pesquisa envolveu 80.508 participantes de 159 países e 70 idiomas, oferecendo uma amostra diversificada. Os resultados indicam que o entusiasmo pela IA é mais pronunciado em regiões da África, Ásia e América Latina, enquanto a América do Norte e a Europa Ocidental demonstram maior cautela. Essa diferença de percepção entre entusiasmo e benefícios estruturais é crucial, especialmente para países que buscam transformar a inclusão digital em desenvolvimento econômico.

O estudo foi realizado com usuários do Claude, que já encontraram valor na tecnologia. Dos 112.846 entrevistados, 80.508 foram incluídos na análise final. Aproximadamente 72% dos respondentes mencionaram suas ocupações, o que ajuda a entender a relação entre IA e trabalho, embora a representatividade global ainda seja limitada. Entre os participantes, cerca de 18% esperam excelência profissional, 32% relatam aumento de produtividade e 22,3% expressam preocupação com empregos e economia. Esses dados revelam tanto a utilidade da IA quanto uma ansiedade generalizada.

A geografia do entusiasmo pela IA é significativa. Em economias desenvolvidas, a tecnologia é integrada a um contexto de infraestrutura robusta e capital abundante, enquanto em países em desenvolvimento, a IA é vista como um atalho para superar deficiências educacionais e aumentar a renda. Apesar de a América Latina e o Caribe representarem 14% das visitas globais a soluções de IA, recebem apenas 1,12% do investimento global na área, mesmo contribuindo com 6,6% do PIB mundial. Essa discrepância indica um apetite por inovação, mas o capital necessário para avançar muitas vezes está concentrado em outras regiões.

O entusiasmo por IA no Sul Global deve ser analisado com cautela. Em muitos mercados emergentes, a tecnologia é percebida como uma oportunidade devido à escassez de alternativas. Essa percepção gera adesão, mas a tecnologia tende a beneficiar mais aqueles que já controlam a infraestrutura e os dados necessários. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) alertou que os países entram na era da IA com desigualdades significativas em sua capacidade de aproveitar os benefícios e gerenciar os riscos associados. Sem intervenções políticas adequadas, essas disparidades podem aumentar, revertendo progressos na redução das desigualdades de desenvolvimento.

Os dados sobre trabalho reforçam essa desigualdade. O estudo da Anthropic revela que 47% dos trabalhadores independentes se sentem empoderados economicamente pela IA, em comparação com apenas 14% dos empregados formais. Entre aqueles com projetos paralelos, esse número sobe para 58%. Isso sugere que a IA tende a favorecer quem já possui recursos para reorganizar processos e transformar a autonomia em renda. A produtividade na América Latina cresceu apenas 0,4% ao ano nos últimos 25 anos, mas a IA pode potencialmente aumentar esse ritmo para entre 1,9% e 2,3% ao ano, adicionando entre US$ 1,1 trilhão e US$ 1,7 trilhão anualmente à economia da região.

A desigualdade no otimismo global é evidente. Um estudo da Stanford University aponta que 83% dos entrevistados na China, 80% na Indonésia e 77% na Tailândia consideram os produtos e serviços de IA mais benéficos do que prejudiciais, enquanto nos Estados Unidos esse índice é de 39%, no Canadá 40% e nos Países Baixos 36%. Além disso, em 2024, agências federais dos Estados Unidos introduziram 59 regulações relacionadas à IA, e as menções legislativas ao tema cresceram 21,3% em 75 países desde 2023. Mercados desenvolvidos demonstram menos entusiasmo, pois compreendem melhor o impacto sistêmico da transformação.

A questão central não é quem acredita mais na IA, mas quem está em posição de transformar essa crença em capacidade produtiva e retorno econômico. Países emergentes necessitam de mais do que usuários habilidosos; precisam de infraestrutura, formação técnica, poder computacional, políticas industriais, regulação inteligente, capital paciente e ambição de autoria. Sem esses elementos, a IA pode se tornar uma promessa de autonomia que resulta em dependência. O mundo já vivenciou esse cenário, que agora se apresenta com uma interface aprimorada e maior velocidade. O entusiasmo sem uma estratégia sólida pode gerar aplausos temporários, enquanto uma estratégia bem estruturada define quem será autor do futuro e quem apenas o alugará.


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