Odisseu, figura central do poema épico Odisseia, escrito por Homero, pode não ter existido como uma pessoa histórica, mas descobertas arqueológicas na ilha grega de Ítaca sugerem que ele foi venerado como uma figura digna de culto por comunidades antigas. Pesquisadores encontraram vestígios de um santuário com aproximadamente 2.400 anos, dedicado ao lendário rei. As escavações ocorreram em um complexo conhecido como Odysseion, situado nas encostas do Monte Exogi, onde arqueólogos descobriram inscrições, moedas, objetos cerimoniais e outros artefatos que indicam práticas religiosas associadas ao herói. Os resultados foram divulgados pelo Ministério da Cultura da Grécia no ano anterior.
Embora as evidências não confirmem a existência real de Odisseu, elas ajudam a entender como os gregos do período helenístico transformaram personagens da tradição épica em referências religiosas e culturais, preservando sua memória por séculos após a composição dos poemas atribuídos a Homero. O interesse pela história do herói aumentou após a estreia nos cinemas de um longa-metragem inspirado na obra de Homero. Apesar de a tradição literária apresentar Odisseu como o rei que enfrentou uma longa jornada para retornar a Ítaca após a Guerra de Troia, a maioria dos especialistas considera sua trajetória parte do universo mitológico. No entanto, os vestígios encontrados pelos arqueólogos demonstram que, para os habitantes da Grécia antiga, a figura do herói tinha um significado religioso real.
O complexo arqueológico, conhecido há mais de um século, recebeu pouca atenção anteriormente por não apresentar evidências que o ligassem diretamente aos eventos narrados na Odisseia. A situação mudou com as escavações iniciadas em 2018 pelo arqueólogo Giannos G. Lolos, da Universidade de Ioannina, que aprofundaram pesquisas realizadas entre 1994 e 2011. Entre as estruturas identificadas estão um amplo salão destinado a cerimônias, uma torre que pode ter tido função estratégica e uma cisterna construída com técnicas do período micênico. Contudo, os pesquisadores não encontraram elementos que comprovassem que o conjunto remanescente foi erguido na época em que a tradição situa a vida de Odisseu.
Rachel Kousser, arqueóloga e historiadora da arte da Universidade da Cidade de Nova York, afirmou que as descobertas oferecem uma nova perspectiva sobre como os gregos reinterpretaram seu passado. Os materiais recuperados durante as escavações incluem recipientes cerimoniais, joias, taças, centenas de moedas de diferentes cidades do mundo helenístico e romano, além de milhares de fragmentos de cerâmica. Três telhas encontradas possuem inscrições relacionadas ao nome de Odisseu, indicando que o local era simbolicamente associado ao personagem e recebia oferendas em sua homenagem.
Christina Marabea, arqueóloga da Universidade Helênica Aberta e parte da equipe de pesquisa, observou que a diversidade de moedas sugere que o santuário atraía pessoas de regiões distantes, incluindo marinheiros, comerciantes e peregrinos. Além disso, a presença de pesos de tear e fusos indica que mulheres também participaram das cerimônias religiosas, prestando homenagens a Odisseu e a Penélope, reconhecida por sua habilidade com o tear. Esse tipo de veneração se encaixa na prática do culto aos heróis, comum na Grécia antiga, onde personagens de narrativas épicas passaram a receber homenagens religiosas ao lado das divindades tradicionais.
A autoria da Ilíada e da Odisseia continua a ser debatida entre especialistas. Alguns acreditam que os poemas foram construídos ao longo de gerações por diferentes narradores orais antes de serem registrados, enquanto outros defendem que apresentam uma unidade estrutural compatível com a atuação de um único autor. Daisy Dunn, classicista e autora de The Missing Thread: A Women’s History of the Ancient World, é uma das que sustentam a hipótese de um único Homero, considerando a estrutura e desenvolvimento das obras.
As descobertas também reabrem discussões sobre a localização da Ítaca descrita por Homero. Diferentes hipóteses têm sido apresentadas ao longo das décadas para explicar as divergências entre a descrição no poema e a geografia atual da região. Giannos G. Lolos acredita que os vestígios encontrados reforçam a associação entre a atual ilha de Ítaca e o cenário descrito na tradição homérica. Ele menciona um decreto do século III a.C., preservado em pedra na antiga Magnésia, que menciona um festival chamado Odysseia, promovido pelos habitantes de Ítaca em homenagem ao herói. Para Lolos, as evidências demonstram que, independentemente da existência histórica de Odisseu, sua figura era parte da identidade cultural e religiosa da população local, conectando a tradição literária à realidade vivida pelos antigos habitantes da ilha.
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