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Petrobras diz que alta do gás de cozinha se deve a lucro de distribuidoras, após críticas de Lula

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Petrobras diz que alta do gás de cozinha se deve a lucro de distribuidoras, após críticas de Lula

O aumento do preço do gás de cozinha gerou uma troca de acusações entre a Petrobras, distribuidoras de gás e o governo federal, que buscam se desvincular da responsabilidade pela alta do produto. No sábado (4), após críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Ministério de Minas e Energia, a Petrobras enviou uma carta à Senacon, do Ministério da Justiça. No documento, ao qual a Folha teve acesso, a empresa defende seu modelo de leilões e critica as distribuidoras, afirmando que elas tiveram um aumento significativo em suas margens de lucro nos últimos anos, o que contribuiu para o encarecimento do gás.

A Petrobras argumenta que o problema não reside em sua política de preços ou no modelo de leilões, mas sim no aumento do faturamento das distribuidoras. A empresa cita um estudo da EPE, que mostra que, entre 2019 e 2023, as distribuidoras enfrentaram aumento de custos e despesas compatível com a inflação, enquanto seus lucros cresceram de forma desproporcional, elevando o custo para o consumidor. A estatal destaca que a margem líquida das distribuidoras cresceu 188% em termos percentuais e 243% em reais, passando de R$ 197 por tonelada em 2019 para R$ 675 por tonelada em 2023, enquanto a inflação foi de 48% no mesmo período.

Além disso, a Petrobras afirma que as margens das distribuidoras estão acima da média internacional e que a participação da distribuição no preço final do botijão aumentou ao longo dos anos. Os dados indicam que, em 2023, as margens líquidas das distribuidoras nacionais estavam 34% acima da média das empresas internacionais. A empresa conclui que há uma assimetria na transmissão dos reajustes de preços, com aumentos sendo repassados rapidamente, enquanto as reduções são retidas nas margens de distribuição e revenda.

O setor de distribuição de gás de cozinha, conhecido como GLP, é dominado por cinco grandes grupos: Copa Energia, Nacional Gás, Supergasbras, Ultragaz e Consigaz, que controlam cerca de 95% do mercado. A Folha consultou o Sindigás sobre as declarações da Petrobras. O sindicato, representando as distribuidoras, afirmou que não se manifesta sobre preços, mas criticou o modelo de leilões da Petrobras. Segundo o Sindigás, a estatal utiliza leilões para vender gás a preços elevados, quando deveria fazê-lo por meio de contratos regulados.

O Sindigás também argumenta que os leilões oferecem um produto retirado do volume necessário para atender o mercado, resultando em escassez. As empresas alegam que essas ofertas ocorrem nas vésperas do fechamento mensal, dificultando alternativas logísticas. O sindicato e suas associadas afirmam que já apresentaram estudos técnicos sobre o tema, que estão sob análise da ANP.

A produção e oferta de gás de cozinha no Brasil envolve refinarias, unidades de processamento de gás natural, petroquímicas e importadoras. Em 2025, a demanda nacional de GLP foi de 7,4 milhões de toneladas, com a Petrobras respondendo por 89,8% do fornecimento. A Refinaria de Mataripe (Acelen) destacou-se entre os demais agentes, com 4,8% do total.

Dados da ANP mostram que a produção nacional atingiu 5,8 milhões de toneladas em 2025, enquanto as importações somaram 1,6 milhão de toneladas, resultando em uma dependência externa de 21%. A Petrobras foi responsável por 93,8% das importações. Na carta à Senacon, a Petrobras defendeu o leilão realizado em 31 de março, no qual vendeu cerca de 70 mil toneladas de GLP, representando aproximadamente 12% do consumo mensal, com ágio de até 117%. O resultado gerou a indignação do presidente Lula, que afirmou que o governo pretende anular o leilão, alegando que a população mais pobre não pode arcar com os efeitos da alta internacional do petróleo.

Em entrevista na quinta-feira (2), Lula classificou o leilão como uma prática inaceitável e afirmou que o governo não permitirá que os pobres paguem por essa situação. O tema se torna ainda mais relevante com a criação do programa Gás do Povo, que oferece botijões gratuitamente a famílias de baixa renda.

Diante da pressão política em um ano eleitoral, a Petrobras anunciou que está reavaliando seus procedimentos internos, incluindo o leilão de 31 de março de 2026, embora não tenha detalhado quais mudanças pretende implementar. A empresa defendeu os leilões como um mecanismo legítimo de mercado, afirmando que o preço final é determinado pela disposição a pagar dos participantes, refletindo as condições reais do mercado. A Petrobras argumentou que os leilões representam uma parcela limitada do mercado e ajudam a equilibrar oferta e demanda, especialmente em um cenário de necessidade de importação.

A companhia também destacou que os preços praticados permanecem abaixo das referências internacionais. Em abril de 2026, o preço médio do GLP vendido pela Petrobras foi de R$ 2.932,5 por tonelada, inferior ao parâmetro de paridade de importação divulgado pela ANP. A fiscalização do TCU, realizada no ano anterior, ressaltou o impacto positivo dos leilões na formação do preço médio praticado pela Petrobras.

Em resposta à Folha, a Petrobras confirmou o envio das informações contidas na carta. No cenário externo, dados da ANP indicam que o custo do GLP importado subiu cerca de 60% após o início da guerra no Oriente Médio, o que pressiona toda a cadeia, já que o Brasil depende de importações para cerca de 20% do seu consumo. Além disso, houve reajustes no refino privado, com aumentos de cerca de 16% no GLP, equivalentes a aproximadamente R$ 7 por botijão, sinalizando repasses ao consumidor. O preço final do gás de cozinha permanece em torno de R$ 110, com tendência de alta nas próximas semanas.

Na segunda-feira (6), o conselho de administração da Petrobras demitiu Cláudio Schlosser, diretor de Logística, Comercialização e Mercados, responsável pelas áreas de vendas e formação de preços de combustíveis.


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