A Polícia Federal investiga movimentações financeiras relacionadas a desvios no INSS para determinar se Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, foi o beneficiário final de recursos suspeitos. Os investigadores buscam evitar uma quebra de sigilo mais abrangente, que poderia ser vista como uma devassa sobre o filho do presidente da República. Lulinha teve seus sigilos bancário, fiscal e telemático quebrados por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, a pedido da própria PF. No entanto, não houve quebra de sigilo das empresas pertencentes a ele.
A atuação da PF é cautelosa. Os investigadores destacam que Lulinha ainda não foi indiciado e que as apurações continuam. A solicitação para a quebra dos sigilos ocorreu após informações obtidas durante o inquérito inicial e depoimentos. O objetivo é verificar se houve o pagamento de uma suposta mesada de R$ 300 mil do lobista Antônio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, a Lulinha. Um ex-funcionário do lobista, Edson Claro, afirmou em depoimento que Antunes pagava essa quantia mensalmente a Lulinha e que se orgulhava de sua ligação com o filho do presidente. Contudo, a quebra de sigilo não revelou repasses diretos do Careca a ele.
A PF encontrou indícios de pagamentos no valor de R$ 300 mil à empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha. A investigação busca determinar se ela repassou o dinheiro ao filho do presidente ou a outra pessoa. A defesa de Lulinha afirmou que ele não recebeu valores relacionados às fraudes no INSS e que não participou dos crimes investigados. Segundo seu advogado, a quebra do sigilo bancário dos envolvidos não identificou qualquer vínculo financeiro entre ele e os fatos apurados. O advogado Guilherme Suguimori declarou que todos os esclarecimentos necessários foram enviados ao Supremo Tribunal Federal e que Lulinha se colocou à disposição para qualquer consideração adicional que a corte julgar necessária.
As investigações da Polícia Federal fazem parte da operação Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos de benefícios do INSS. Atualmente, a PF considera que a operação, iniciada em abril de 2025, está se aproximando de sua metade final. Existem suspeitas sobre possíveis operadores e beneficiários do esquema, incluindo advogados. A operação pode ainda resultar em desdobramentos, com delações premiadas em negociação, como a do empresário Maurício Camisotti, um dos principais operadores do esquema. Camisotti foi preso em setembro do ano passado, junto com o Careca do INSS, e está discutindo a possibilidade de um acordo com a PF.
Em uma fase da operação realizada no final do ano passado, a PF afirmou ter identificado pagamentos de R$ 300 mil feitos pelo Careca à empresária amiga de Lulinha. No total, Roberta Luchsinger teria recebido R$ 1,5 milhão do lobista em parcelas. Em mensagens trocadas, o Careca do INSS solicitou a um operador que realizasse o pagamento de uma parcela de R$ 300 mil a uma empresa em nome de Roberta, a RL Consultoria e Intermediações. O operador questionou quem seria o destinatário do dinheiro, e o Careca respondeu que seria "o filho do rapaz", recebendo em seguida o comprovante do pagamento para a empresa de Roberta. Na época, a PF considerou a possibilidade de que ele se referisse a Lulinha e que o filho do presidente poderia ser um sócio oculto do Careca.
A defesa de Roberta afirma que sua empresa atua na prospecção e intermediação de negócios com empresas nacionais e estrangeiras e que foi procurada no ano passado pela empresa Brasília Consultoria Empresarial S/A, de Antônio Carlos Camilo Antunes, para atuar na regulação do setor de empresas de canabidiol. Os advogados ressaltam que as tratativas iniciais não prosperaram e ocorreram antes das revelações sobre os desvios de descontos do INSS. As investigações sobre Lulinha avançaram para descobrir se Roberta fez pagamentos a ele, financiando viagens do filho do presidente por meio de repasses do Careca. A defesa de Roberta nega irregularidades e considera "risível" a tese de que se tentou "lavar dinheiro" por meio de viagens ao exterior, argumentando que isso representaria a fruição do valor e não sua ocultação.
Os advogados também solicitaram ao ministro André Mendonça a abertura de uma apuração sobre o vazamento de informações detalhadas da investigação. A operação Sem Desconto, conduzida pela PF em parceria com a Controladoria-Geral da União, investiga um esquema de fraudes que teria desviado cerca de R$ 6,3 bilhões de beneficiários do INSS entre 2019 e 2024. A fraude consistia em descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões, cobrados por entidades de fachada que não prestavam os serviços prometidos, como convênios médicos ou auxílio funerário.
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