A descoberta de transações e diálogos entre Dias Toffoli e o banqueiro Daniel Vorcaro intensificou um embate descrito por integrantes dos três Poderes como um conflito institucional entre o ministro do STF e a Polícia Federal nas investigações do escândalo de fraudes do Banco Master. Investigadores afirmam que a atuação de Toffoli no caso prejudicou a apuração. Autoridades relataram temor de uma ruptura institucional no STF, que desde o final do ano passado, quando Toffoli assumiu o caso, tem enfrentado uma crise sem capacidade de reação. Na noite de quinta-feira (12), o ministro decidiu deixar a relatoria do caso.
A situação em torno do caso Master gerou uma guerra fria, com ataques e contra-ataques entre atores políticos e órgãos públicos, cujos desdobramentos estão fora de controle em Brasília e nos estados onde ocorrem investigações. Em nota divulgada na quinta-feira, Toffoli afirmou que nunca teve qualquer relação de amizade com Daniel Vorcaro e que não recebeu valores do banqueiro ou de seu cunhado, Fabiano Zettel. A assessoria do STF não se manifestou quando procurada.
A pressão sobre a Polícia Federal aumentou após a operação da semana passada, que mirou aliados do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, no Amapá. Políticos e autoridades passaram a reclamar que a PF estaria agindo sem limites, pedindo uma contenção nas investigações. Um dos focos de pressão é a apuração de vazamentos de informações sigilosas dos inquéritos do Master, com a defesa de Vorcaro solicitando investigações sobre esses vazamentos.
Na última segunda-feira (9), o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, entregou ao presidente do STF, Edson Fachin, um relatório com mensagens trocadas entre Vorcaro e Zettel, nas quais discutem pagamentos à empresa Maridt, que tem entre seus sócios o ministro Dias Toffoli. O ministro confirmou que faz parte do quadro societário da Maridt, que foi uma das donas do resort Tayayá, no Paraná, mas negou ser amigo de Vorcaro e ter recebido valores do ex-banqueiro.
Investigadores, que falaram sob condição de anonimato, consideram que os pagamentos podem motivar a conduta de Toffoli, podendo acionar um processo de suspeição que o afaste do caso. Há preocupações de que isso possa invalidar provas, alegando erro processual, e provocar a nulidade de partes do processo. O acesso às provas apreendidas na segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes relacionadas ao Banco Master, é um tema delicado na PF. Ninguém confirmou se os peritos receberam as provas, mas também não negaram.
Toffoli escolheu os peritos após um vaivém sobre o destino das provas da operação. Inicialmente, determinou que todo o material fosse lacrado e guardado no STF, ao invés da PF, como é habitual, e depois autorizou que as provas ficassem sob a guarda da Procuradoria-Geral da República. Em meio à crise, autoridades em Brasília alertaram sobre o risco de que os demais ministros do STF se tornem indiretamente "sócios" da crise do resort Tayayá, o que poderia fortalecer o discurso de lideranças bolsonaristas contra a corte. Isso poderia levar a uma ressignificação dos atos de 8 de janeiro de 2023.
Autoridades que acompanham o caso sugeriram que o ministro deveria revelar seu sigilo bancário e telefônico e comprovar os pagamentos à Maridt. Após a reunião que selou a saída de Toffoli do caso Master, os ministros do Supremo expressaram apoio ao colega e afirmaram a inexistência de suspeição ou impedimento. O texto destacou que a mudança da relatoria ocorreu a pedido do magistrado, considerando os altos interesses institucionais.
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