N/A

Relatório da PF sobre suposto esquema criminoso de deputado federal cita conversas com cantor Wesley Safadão e família

29 views
Investigação apontou negociações de emendas parlamentares, fraudes a licitações de prefeituras e financiamentos ilegais de campanhas eleitorais no Ceará.

Um relatório da Polícia Federal que apontou o envolvimento do deputado federal Júnior Mano (PSB) em um esquema de negociação de emendas parlamentares, fraudes a licitações de prefeituras e financiamentos ilegais de campanhas eleitorais no Ceará também mostrou que o parlamentarmantinha negociações constantes com o cantor Wesley Safadão e sua família.

As conversas encontradas no aparelho celular do parlamentar mostram que Júnior Mano solicitou patrocínio de R$ 200 mil a uma empresa de Safadão, pouco após o artista fechar contrato para show na cidade de Nova Russas, que tem como prefeita a esposa do deputado, Giordanna Mano (PRD).

Júnior Mano também aparece discutindo apoios políticos com o irmão de Safadão, Yvens Watilla, e pedindo ao Ministério dos Portos e Aeroportos a liberação de aeronaves do cantor para que ele pudesse usar durante a campanha eleitoral.

As conversas encontradas no aparelho celular do parlamentar fazem parte da investigação da PF sobre o grupo criminoso que seria liderado pelo ex-prefeito de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), foragido há mais de um ano, e por Júnior Mano (PSB). 

A Polícia Federal apontou a participação de 13 pessoas no esquema, envolvidos em crimes como organização criminosa com fins eleitorais, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica eleitoral e captação ilícita de sufrágio. Safadão e família não são investigados por nenhum destes crimes.

Por meio de nota enviada ao g1, Wesley Safadão disse que “não possui qualquer envolvimento político com as pessoas mencionadas” e que o pedido de patrocínio é “algo comum dentro do ambiente de eventos e entretenimento”. “O artista segue dedicado integralmente à sua carreira musical”, completou a nota.

Por meio de nota, a assessoria jurídica do deputado Júnior Mano disse que a investigação da Polícia Federal “nada encontrou de relevante contra o deputado” e lamentou o “vazamento seletivo de informações sigilosas justamente num momento em que os partidos começam a definir as candidaturas para as eleições deste ano”.

Patrocínio e avião

De acordo com o relatório da PF, Carlos Alberto Queiroz, o Bebeto, era o responsável por intermediar a destinação das emendas parlamentares do deputado Júnior Mano para prefeituras alinhadas ao grupo. O suspeito também negociava uma porcentagem da emenda que ficava com o grupo, uma “taxa” que variava entre 12 e 15% do recurso.

As investigações apontam que Bebeto utilizava várias empresas, que tinham contratos com diversas prefeituras do interior do Ceará, para desviar recursos que eram utilizados tanto para enriquecimento ilícito quanto para financiar campanhas eleitorais de aliados, por meio de práticas como a compra de votos. Depois, as mesmas empresas conseguiam contratos nas prefeituras dos aliados eleitos.

Entre as conversas captadas pelos investigadores, está a de Júnior Mano com Wesley Safadão. Em 2024, o deputado pede que a empresa de apostas de Safadão, a BetVip, patrocine em R$ 200 mil um evento em Nova Russas, cidade natal do parlamentar e sua base política. O cantor responde: “Vamos falar amanhã. Tô saindo agora para uma oração”. 

O pedido para Safadão ocorreu pouco após a prefeitura de Nova Russas fechar um contrato de R$ 900 mil para que o cantor realizasse um show no evento Festeja Nova Russas, em 2024. O cantor se apresentou novamente no evento, em 2025, desta vez com um cachê de R$ 1,2 milhão. A atual prefeita do município, Giordanna Mano, é esposa de Júnior Mano.

O relatório da PF sugere que o pedido de patrocínio de Júnior Mano para Safadão, na verdade, se trata “de solicitação camuflada de propina, com devolução de parte do valor contratado”, em referência aos shows contratados pela prefeitura de Nova Russas.

Ainda em 2024, Júnior Mano falou diretamente com o ministro dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, pedindo que ele acelerasse a liberação, pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), de duas aeronaves de Safadão que seriam usadas pelo deputado nas eleições de 2024. “Vou andar nesse [avião] menor nas campanhas, não aguento mais carro”, disse o parlamentar ao ministro. 

Júnior Mano pediu que Ministério dos Portos e Aeroportos libarasse aeronaves de Wesley Safadão para ele usar — Foto: Reprodução 

Outras conversas mostram a proximidade do parlamentar com Yvens Watilla, irmão de Safadão e administrador da sua carreira. Ao longo de uma série de conversas, Watilla e Júnior discutem quem apoiar em determinadas prefeituras, citam movimentações financeiras e pedidos para que o irmão do cantor fizesse intermediação com determinados políticos em prefeituras do interior. 

O relatório também cita que, durante cumprimento de mandados de busca e apreensão em um imóvel de Júnior Mano em Fortaleza, a PF encontrou na vaga de estacionamento do deputado um carro pertencente à empresa de Watilla.

Para a Polícia Federal, as conversas evidenciam que “o relacionamento próximo entre o parlamentar e os familiares de Wesley Safadão não se limitou a fotografias, agendas e cordialidade: ele transbordou a para a gestão concreta de interesses”.

A defesa de Yvens Watilla não foi localizada para comentar a relação dele com Junior Mano e a investigação da Polícia Federal.

A família de Wesley Safadão tem forte atuação na política na cidade cearense de Aracoiaba. Outro irmão do cantor, Wellington Silva de Oliveira, o Edim (PP), era prefeito do Município, até ser cassado pela Câmara dos Vereadores, em fevereiro deste ano. Pai e mãe do artista também foram vereadores na cidade.

Como funcionava suposto esquema criminoso

Esquema envolvendo deputado federal Júnior Mano (PSB) e ex-prefeito Bebeto Queiroz (PSB) negociava emendas parlamentares, fraudes em licitações de prefeituras e financiamento ilegal de campanhas eleitorais no Ceará — Foto: Reprodução

Esquema envolvendo deputado federal Júnior Mano (PSB) e ex-prefeito Bebeto Queiroz (PSB) negociava emendas parlamentares, fraudes em licitações de prefeituras e financiamento ilegal de campanhas eleitorais no Ceará — Foto: Reprodução 

De acordo com a Polícia Federal, o deputado Júnior Mano e o ex-prefeito Bebeto operavam o esquema de distribuição de emendas parlamentares com cobrança de retorno financeiro. A PF indica que a estrutura montada por Bebeto já existia antes da entrada de Júnior Mano. Com sua chegada, porém, o deputado passou a contribuir com recursos que ampliaram o alcance do esquema.

“A partir da influência de Junior Mano na captação de emendas, o grupo de Bebeto direcionava os recursos para determinados municípios estratégicos, onde a alocação financeira serviria de base para a cooptação política de prefeitos e a posterior manipulação dos processos de contratação pública”, diz o relatório da PF, ao qual o g1 teve acesso. 

O grupo ficava com parte do dinheiro das emendas, valor que variava entre 12 e 15% do recurso. Além disso, o caixa das empresas envolvidas era utilizado para movimentações financeiras expressivas, com o envio de milhares de reais tanto por transações via Pix quanto no saque de dinheiro vivo. 

O esquema se retroalimentava: mais tarde, uma vez que os candidatos apoiados pelo grupo fossem eleitos, as empresas do esquema conseguiam contratos com as prefeituras dos aliados eleitos. O relatório cita pelo menos dez empresas suspeitas de envolvimento no esquema.

De acordo com análise de 2025 da Controladoria-Geral da União (CGU), nove dessas empresas envolvidas no esquema receberam de prefeituras cearenses cerca R$ 455,5 milhões entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025. 

Bebeto Queiroz e Júnior Mano são acusados de chefiar grupo criminoso envolvido em fraudes e compra de votos no Ceará — Foto: Reprodução

Bebeto Queiroz e Júnior Mano são acusados de chefiar grupo criminoso envolvido em fraudes e compra de votos no Ceará — Foto: Reprodução 

Nas conversas, Bebeto constantemente orienta os supostos proprietários das empresas sobre valores que eles devem enviar para políticos aliados. Os operadores enviavam os valores e depois compartilhavam os comprovantes com Bebeto. Em outras conversas, Bebeto negocia a compra de votos nas eleições de 2024 por valores entre R$ 200 e R$ 500

O político costumava dizer que estava realizando atividades a pedido ou em favor de Júnior Mano, inclusive visitava gestores apoiados pelo grupo ou realizava transferências de dinheiro a pessoas indicadas pelo parlamentar. 

Os investigadores encontraram uma lista com pelo menos 71 prefeituras do Ceará que estariam vinculadas ao deputado. Destas, os candidatos apoiados pelo grupo teriam sido eleitos em aproximadamente 50 cidades. Não está claro se os políticos receberam dinheiro do esquema. 

Bebeto Queiroz está foragido há mais de um ano. — Foto: Redes sociais/Reprodução

Bebeto Queiroz está foragido há mais de um ano. — Foto: Redes sociais/Reprodução 

O que dizem os citados no relatório

Júnior Mano:

  • Depois de um ano de uma ruidosa investigação,  a Polícia Federal nada encontrou de relevante contra o deputado Júnior Mano. As conclusões do relatório final são exageradas, genéricas e sem provas. Júnior Mano não é ordenador de despesas, não participou de licitações e, portanto,  não tem como controlar a aplicação final de recursos federais. O deputado reafirma, com firmeza, que não cometeu qualquer irregularidade. É lamentável o vazamento seletivo de informações sigilosas justamente num momento em que os partidos começam a definir as candidaturas para as eleições deste ano. Esperamos que o inquérito aberto pela PF para apurar o vazamento de dados protegidos por sigilo apresente uma resposta clara contra o uso de informações processuais com fins políticos.

Wesley Safadão:

  • Wesley Safadão não possui qualquer envolvimento político com as pessoas mencionadas. A troca de mensagens divulgada entre o deputado Júnior Mano e o artista diz respeito exclusivamente a um pedido de patrocínio encaminhado ao cantor, algo comum dentro do ambiente de eventos e entretenimento. Não houve, por parte de Wesley, qualquer participação em articulações políticas, apoio a iniciativas dessa natureza ou relação com decisões institucionais. O artista segue dedicado integralmente à sua carreira musical e aos seus projetos profissionais.

Bebeto Queiroz:

  • A defesa do Senhor Carlos Alberto esclarece que todas as manifestações são apresentadas exclusivamente nos procedimentos respectivos, foro adequado para o debate das questões em análise.

Fonte: g1


Descubra mais sobre Euclides Diário

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Rolar para cima