Com a chegada do outono no Nordeste, elementos característicos marcam a festa junina, que culmina no dia 24 de junho e se estende por todo o mês. Antes das celebrações, a colheita de itens essenciais como milho, amendoim e mandioca é fundamental. Na Bahia e em diversas partes do país, a abundância nas mesas é resultado da agricultura e pecuária familiar, que enfrentam os efeitos das mudanças climáticas.
A partir desta quinta-feira (18), o Bahia Notícias inicia a série de reportagens “Safra, sabor e sanfona”, que explora as particularidades que fazem do festejo junino uma das principais manifestações culturais da Bahia. O especial foca nas transformações na agricultura, na alimentação e nas celebrações, que são acompanhadas por música tradicional.
A primeira reportagem destaca a agricultura e a habitação no sertão baiano, que precisam passar por adaptações para garantir a sobrevivência no semiárido. Os impactos das mudanças climáticas são evidenciados por dados e imagens do Sistema de Informações e Análises sobre Impactos das Mudanças Climáticas, conhecido como AdaptaBrasil. Na seção de segurança alimentar, que utiliza dados de 2017, é possível analisar os índices de impacto nos 417 municípios da Bahia.
O painel do MCTI sobre segurança alimentar é dividido em dois subsetores: “Disponibilidade de Alimentos” e “Acesso e Consumo de Alimentos”, com a dimensão “Estabilidade” atuando como mediadora. A Disponibilidade de Alimentos é a dimensão mais afetada pelas mudanças climáticas, uma vez que fenômenos naturais impactam diretamente a produção.
No mapa de Índice de risco de impacto, que avalia os riscos das mudanças climáticas nos sistemas socioecológicos, a maioria dos municípios apresenta resultados positivos. Dos 417 municípios, 212 têm risco considerado muito baixo, 113 com baixo risco, 66 com risco médio, 22 com risco alto e quatro com risco muito alto. Os municípios com risco muito alto são Matina, Malhada e Sítio do Mato, na região do Velho Chico, e Abaré, no norte do estado.
Em relação ao Índice de vulnerabilidade, que mede a suscetibilidade dos sistemas socioecológicos aos efeitos da seca, a situação é mais complexa. A maioria dos municípios apresenta níveis médio ou alto de risco. De acordo com os dados do AdaptaBrasil, 27 municípios têm baixo risco de vulnerabilidade, 325 têm índice médio e 64 têm índice alto. Apenas Rodelas, no território de Itaparica, registrou índice muito alto de suscetibilidade à falta de alimentos.
Os dados, que refletem uma realidade de quase uma década atrás, não consideram mudanças significativas, como a urbanização e as políticas públicas. Para entender a situação atual, o Bahia Notícias conversou com Débora Rodrigues, presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Estado da Bahia (Consea-BA), que acompanha as políticas estaduais de segurança alimentar. Ela destaca que pesquisas já indicam impactos na produção de alimentos no semiárido.
Débora ressalta que, embora o Brasil tenha saído do mapa da fome, a insegurança alimentar ainda persiste. Ela enfatiza a necessidade de aprender a conviver com o semiárido, que é uma região produtiva. A ativista explica que os desafios climáticos não são novos para a região e que é fundamental mudar a perspectiva de combate à seca para um desenvolvimento que considere a convivência com o semiárido.
Com a maioria dos municípios baianos no Semiárido Brasileiro, Débora defende que é necessário entender que o território pode ser produtivo, desde que a caatinga seja preservada. Ela menciona que a Bahia enfrentou um alto índice de desmatamento em 2025, com 110.616 hectares desmatados, principalmente na região oeste, que é uma fronteira agrícola.
O Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional da Bahia, vinculado à Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, é responsável por monitorar as políticas públicas. O sistema, criado pela Lei nº 11.346 em 2006, indica que cerca de 37,4% da população baiana vive em algum nível de insegurança alimentar, com a insegurança moderada e grave sendo mais prevalente nas áreas urbanas.
Débora destaca que mais de 200 municípios já aderiram ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, embora a plataforma federal não disponibilize dados acessíveis. Ela observa que a insegurança alimentar é maior nas cidades do que no campo, o que é inverso ao que ocorre em outros estados.
A ativista acredita que o semiárido pode produzir alimentos suficientes para o país, desde que a caatinga seja mantida. Ela menciona que a Bahia está avançando na legislação de convivência com o semiárido, que inclui mais de 168 ações intersetoriais, como o programa de cisternas e políticas de saúde.
Débora enfatiza que as políticas públicas existentes têm mostrado resultados positivos, mas o desafio é ampliar o orçamento para que mais famílias sejam beneficiadas. Ela conclui que a segurança alimentar depende de água, terra e território, citando a música "Asa Branca", que retrata a vida no campo e o sentimento de pertencimento.
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