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Trump, Gaza e Venezuela põem Lula e Flávio em disputa de trunfo eleitoral

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Trump, Gaza e Venezuela põem Lula e Flávio em disputa de trunfo eleitoral

"Itamaraty só dá voto no Burundi", é um aforismo atribuído a Ulysses Guimarães, que reflete uma ideia comum desde a redemocratização: a política externa não influencia as eleições no Brasil. No entanto, essa percepção pode estar mudando, especialmente com a disputa entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ambos buscando uma relação favorável com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Outros temas relevantes também devem surgir durante a eleição.

Analistas internacionais apontam que a postura de Lula em relação à Venezuela e seu apoio à causa palestina podem ser fatores negativos para sua candidatura. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro, que apoia Israel, não possui a mesma visibilidade internacional e pode ser visto como subserviente aos interesses dos EUA.

O professor de relações internacionais da USP, Feliciano de Sá Guimarães, estuda há dez anos a opinião pública sobre política externa, em parceria com o Cebrap. Ele afirma que temas internacionais ganham importância porque influenciam a discussão de valores. O eleitor se posiciona como progressista ou conservador com base no que ocorre no cenário global. A pesquisa utiliza levantamentos quantitativos realizados entre 2010 e 2023, com um ponto de inflexão em 2018, quando Bolsonaro venceu em meio a uma onda de líderes de ultradireita.

Neste ano, a relação dos pré-candidatos com os EUA se destaca. Guimarães ressalta que quem conseguir estabelecer um bom relacionamento com Trump terá vantagem. Ele acredita que a intervenção dos EUA será um fator decisivo. Recentemente, os EUA classificaram as facções criminosas Comando Vermelho e PCC como terroristas, logo após o encontro entre Flávio e Trump na Casa Branca, onde o senador discutiu o combate ao crime organizado. Essa reunião ocorreu em um momento crítico para a pré-candidatura de Flávio, afetada pelo caso "Dark Horse". Desde o início do ano, ele tem viajado aos EUA, reforçando a conexão entre o bolsonarismo e o trumpismo.

Lucas Leite, professor de relações internacionais da Faap, observa que a recepção de um senador sem experiência executiva na Casa Branca indica que Washington busca uma alternativa ao PT. Contudo, a decisão de classificar as facções como terroristas pode ter um efeito contrário ao esperado, uma vez que o eleitor brasileiro indeciso tende a valorizar a soberania nacional de maneira emocional. Na sexta-feira (29), Lula acusou Flávio de traição e de atuar em favor de uma intervenção estrangeira. No início do mês, Lula foi recebido na Casa Branca, em uma reunião que não resultou em anúncios concretos, mas que demonstrou que a interlocução com Washington não é exclusiva da família Bolsonaro. Durante seu terceiro mandato, Lula teve uma relação instável com Trump.

No ano passado, Trump criticou o Brasil por sua postura em relação a Bolsonaro, referindo-se ao processo da trama golpista, e anunciou uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros. Isso levou Lula a adotar uma retórica de soberania nacional, ganhando apoio popular. Em setembro, os dois líderes se encontraram brevemente na ONU, onde Trump mencionou uma "excelente química".

Paulo Velasco, professor de relações internacionais da Uerj, acredita que a classificação do PCC e do CV como terroristas coloca Lula em uma posição difícil para contestar essa decisão durante a campanha. Ele observa que a classe média tende a ver a esquerda como conivente com o crime organizado. Para Flávio, manter uma boa relação com Trump reforça sua imagem como defensor da tradição ocidental e da matriz judaico-cristã, enquanto Lula busca se apresentar como um líder pragmático, que não precisa de alinhamento.

A guerra entre Israel e Hamas e a situação na Venezuela também são questões críticas para a candidatura de Lula. Desde os anos 2000, ele construiu uma relação próxima com o chavismo, sendo rotulado como defensor de ditaduras. A oposição ao PT frequentemente afirma que o Brasil está se tornando uma Venezuela. Durante seu terceiro mandato, Lula adotou uma postura mais cautelosa em relação a Maduro, não reconhecendo sua reeleição em 2024 e pedindo transparência nas eleições, mas evitando classificá-lo como ditador.

No início deste ano, os EUA invadiram a Venezuela e capturaram Maduro, agora preso em Nova York, com Delcy Rodríguez assumindo o poder interinamente. Guilherme Casarões, professor da Florida International University, aponta que Lula ainda enfrenta um passivo significativo entre os eleitores de centro devido à sua relação com ditaduras. A ausência de Maduro pode ser benéfica para ele, pois evita a necessidade de justificar essa relação.

Em relação a Israel, uma declaração de Lula em Adis Abeba, onde comparou o massacre em Gaza ao Holocausto, gerou controvérsia e resultou em sua declaração como persona non grata pelo governo israelense. Casarões destaca que a forma como Lula lidou com Israel impactou segmentos do eleitorado, como evangélicos e judeus, que podem ver suas ações como incentivo ao antissemitismo de esquerda.

Flávio começou o ano eleitoral com uma visita a Israel, onde se batizou no rio Jordão. Dois meses depois, participou da posse de José Antonio Kast como presidente do Chile, onde se encontrou com o presidente argentino Javier Milei. Casarões observa que Flávio carece de experiência internacional, algo que muitos políticos possuem antes de se candidatar. Ele também enfrenta a lembrança da política isolacionista de seu pai, que fez com que a imprensa internacional tratasse o Brasil como um pária.


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