Entre as excentricidades do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, destaca-se o hábito de adquirir aeronaves à vista, o que tem gerado curiosidade entre outros proprietários de jatinhos e especialistas do setor de aviação particular. Entre 2022 e 2024, Vorcaro comprou três aviões para sua frota, totalizando um investimento de quase R$ 260 milhões. Dados da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) confirmam que essas aquisições foram feitas sem financiamento, algo incomum para aeronaves do porte utilizado por ele.
O avião mais valioso da frota é um Gulfstream modelo GV-SP, fabricado em 2010 e registrado como PR-PSE. Ele foi adquirido da Icon Taxi Aéreo em junho de 2023 por cerca de R$ 120 milhões. A compra mais recente ocorreu em agosto de 2024, quando um Dassault modelo Falcon 7X, também de 2010, foi adicionado à frota. Este jato, registrado como PS-FST, foi adquirido da Timbro Trading por aproximadamente R$ 117 milhões. O Falcon 7X ganhou notoriedade ao ser apreendido pela Polícia Federal durante a prisão de Vorcaro em 17 de novembro do ano passado, quando ele se preparava para embarcar para o Oriente Médio. Vorcaro foi libertado 12 dias depois e preso novamente neste mês. O terceiro avião, um Falcon 2000 de 2000, de prefixo PP-CFF, foi comprado da AM Participações em fevereiro de 2022 por pouco mais de R$ 21 milhões.
Não há menção a financiamentos nas aquisições registradas na Anac. Especialistas consultados pela Folha afirmam que o padrão do mercado para a compra de aeronaves desse porte geralmente envolve algum tipo de financiamento. O professor da USP, Carlos Portugal Gouvêa, explica que os juros para a aquisição de aeronaves são historicamente favoráveis, variando entre 6% e 8% ao ano no mercado internacional. Ele destaca que as aeronaves servem como garantia e são seguradas, tornando-se bens de fácil recuperação.
Gouvêa também observa que é mais comum que essas aeronaves sejam compradas por empresas, que podem deduzir o pagamento do financiamento e evitar a depreciação de um patrimônio significativo em seus balanços. No caso de Vorcaro, os jatos foram adquiridos pela empresa Viking, da qual ele é sócio. O professor considera incomum a compra de aeronaves particulares à vista, sugerindo que isso pode indicar uma motivação não usual, como a blindagem patrimonial.
O advogado Angelo Paschoini, sócio do escritório Paschoini Advogados, reconhece que há situações em que a compra à vista é justificável, mas não se aplica aos jatos executivos de Vorcaro. Ele menciona que aeronaves mais antigas e baratas, como pequenos monomotores a pistão, podem ser vendidas à vista, mas que, em geral, o leasing é a prática comum para aeronaves mais caras, especialmente aquelas acima de R$ 20 milhões.
Dois meses antes de sua prisão e da liquidação do banco, Vorcaro vendeu 55% do capital da Viking para um fundo de investimentos chamado FIP Stern, administrado pela Reag, que está sendo investigada por suposta participação em fraudes relacionadas ao Master. Apesar de Vorcaro ter se afastado da empresa que possui os aviões, os três jatinhos foram alvo de uma ordem judicial de bloqueio após a liquidação do Master em novembro.
A assessoria de imprensa de Vorcaro não respondeu sobre os motivos de suas compras à vista. Os vendedores Icon e AM não comentaram, enquanto a Timbro Trading afirmou, em nota, que adquiriu a aeronave junto ao exportador já com um comprador previamente definido, no caso, a empresa Viking. A Timbro explicou que, nas operações de importação por encomenda de aeronaves, o pagamento à trading é feito à vista, seja diretamente pelo cliente ou por um banco que depois realiza um arrendamento mercantil para o cliente final.
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