A intensificação do fenômeno El Niño acendeu um alerta no setor agropecuário brasileiro, motivando a Embrapa a apresentar ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) uma nota técnica abrangente. O documento estabelece 163 medidas estratégicas voltadas à gestão de riscos climáticos para a safra 2026/2027, visando mitigar os efeitos adversos que o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial pode causar em diversas regiões do país.
O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais, altera a dinâmica atmosférica global. Conforme explica a meteorologista Danielle Barros Ferreira, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o processo intensifica a evaporação e a formação de nuvens de chuva em áreas específicas, enquanto provoca movimentos de descida de ar em outras, o que frequentemente resulta em precipitações abaixo da média no Nordeste brasileiro.
Gestão de riscos e estratégias de mitigação da Embrapa
Para minimizar prejuízos, a nota técnica coordenada por José Eduardo Boffino de Almeida Monteiro enfatiza a prevenção como pilar fundamental. A recomendação central é o rigoroso cumprimento das janelas de semeadura estabelecidas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), além da seleção criteriosa de cultivares com ciclos adaptados às condições locais.
Além do planejamento de plantio, o documento sugere a adoção de práticas de manejo conservacionista, como a manutenção de palhada e o uso eficiente da irrigação. Essas técnicas visam aumentar a resiliência do sistema produtivo diante de períodos de escassez hídrica, protegendo o desenvolvimento inicial de culturas estratégicas como soja e milho.
Vulnerabilidade e foco no semiárido baiano
O impacto do El Niño tende a ser mais severo no semiárido, região que exige atenção redobrada devido à diversidade de seus sistemas produtivos. José Augusto de Castro Tozzato, da Coordenação de Acompanhamento de Políticas de Inclusão Socioprodutiva e Sustentabilidade (COPIS), destaca que a Bahia possui um mosaico de agricultores familiares, comunidades tradicionais e ribeirinhas que dependem diretamente da estabilidade climática.
Para enfrentar esse cenário, o estado tem utilizado estudos da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) para identificar municípios prioritários. A estratégia atual baseia-se em lições aprendidas em secas prolongadas, como a ocorrida entre 2012 e 2017, integrando ações de segurança hídrica, como a construção de barragens e sistemas de captação de água da chuva.
Ferramentas de proteção financeira ao produtor
Quando os riscos climáticos superam a capacidade de manejo, a nota técnica reforça a importância de instrumentos de proteção financeira. O seguro rural e o Proagro são apontados como mecanismos essenciais para amortecer os impactos econômicos decorrentes de perdas na produção, permitindo que o agricultor mantenha sua viabilidade econômica para as safras subsequentes.
O planejamento antecipado, que inclui a elaboração de planos de contingência para a alimentação animal e o monitoramento constante das previsões climáticas, completa o conjunto de diretrizes. A integração entre ciência, monitoramento em tempo real e políticas públicas de convivência com o semiárido compõe a linha de frente do Brasil para garantir a segurança alimentar e a sustentabilidade do agronegócio nos próximos anos.
Fonte: atarde.com.br
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