Nascer em dupla é carregar, desde o primeiro sopro de vida, a experiência de dividir tempo, espaço e até o olhar externo. Ser gêmeo é uma vivência singular que exige um equilíbrio delicado entre a cumplicidade natural e a construção de uma identidade própria. Especialistas apontam que, especialmente na infância, o estímulo à individualidade é fundamental para que essas crianças desenvolvam seus próprios universos, temperamentos e interesses, evitando que sejam vistas apenas como reflexos uma da outra.
Essa reflexão ganha contornos especiais em setembro, mês marcado por tradições que celebram a dualidade. Seja através dos carurus dedicados aos ibejis nas religiões de matriz africana ou das procissões em homenagem a Cosme e Damião na tradição católica, o nascimento em dupla é exaltado como um símbolo de união. Nesse cenário, educadores e pais enfrentam o desafio de reconhecer cada criança como um indivíduo distinto, sem que isso signifique romper os laços afetivos que as unem.
A importância da construção da identidade individual
Estimular a individualidade desde cedo é essencial para o desenvolvimento emocional saudável. Segundo a psicóloga clínica e docente da Wyden, Tarcya Rayanne dos Santos Lima, ser gêmeo é uma característica da história da criança, mas não deve definir toda a sua identidade. O objetivo não é separar os irmãos, mas ajudá-los a compreender que podem ser profundamente ligados sem a necessidade de serem iguais em tudo.
A proximidade constante não precisa ser um obstáculo para a autonomia. A especialista ressalta que o vínculo entre gêmeos é uma experiência rica, desde que não se transforme em uma dependência emocional onde um irmão tenha dificuldade de existir sem o outro. O foco deve ser sempre o bem-estar e a maturidade de cada um, permitindo que a cumplicidade conviva harmoniosamente com a independência pessoal.
Estratégias familiares e o papel da escola
Muitas famílias adotam práticas cotidianas para incentivar a singularidade, como evitar roupas iguais e matricular os filhos em atividades distintas. A dentista Larissa Ramos Barreto Macedo, mãe de Jhudi e Analu, relata que suas filhas possuem gostos diferentes e até preferências distintas por amizades. Mesmo com essas medidas, pais frequentemente se questionam se o estímulo à individualidade pode, por vezes, distanciar a cumplicidade característica dos gêmeos.
No ambiente escolar, o desafio é igualmente relevante. A orientadora educacional e psicopedagoga Solange Argollo destaca que a escola busca promover a autonomia, garantindo que cada aluno desenvolva sua própria voz e liderança. A equipe pedagógica trabalha para individualizar o processo de aprendizagem, evitando comparações que possam gerar sentimentos de inferioridade ou rivalidade entre os irmãos.
Tradição e fé: o legado de Cosme e Damião
A devoção aos santos gêmeos, celebrados em 26 de setembro pela tradição católica, atravessa gerações e conecta-se à história de caridade e medicina gratuita. O historiador Murilo Mello explica que a popularidade de Cosme e Damião no Brasil, e especialmente na Bahia, é fruto de um abraço coletivo do povo. A associação com os ibejis da tradição iorubá reforça a força do sincretismo religioso brasileiro.
Embora o interesse dos jovens pela festividade tenha diminuído, a devoção permanece firme entre fiéis mais velhos. Para pessoas como Adail Crispiniana dos Santos e Aidil Crispina dos Santos, de 75 anos, o exemplo dos santos médicos serve como guia para a vida. Elas buscam imitar a generosidade dos padroeiros em suas próprias trajetórias, mantendo viva uma tradição que, para além da religião, celebra a importância do cuidado e da união entre irmãos. Para mais informações sobre o contexto histórico, consulte o portal A TARDE.
Fonte: atarde.com.br
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