A espanhola Maricarmen Abascal, de 87 anos, foi retirada de seu apartamento no centro de Madri na última quarta-feira, 23, encerrando um ciclo de 70 anos de residência no mesmo endereço. O despejo, que ocorreu após uma longa batalha judicial, mobilizou centenas de manifestantes e atraiu a atenção de autoridades internacionais sobre a crise habitacional na capital espanhola.
O imóvel, localizado no prestigiado bairro de Retiro, foi alvo de uma disputa iniciada após a venda do edifício para o setor imobiliário. Com dificuldades de locomoção, Maricarmen precisou ser encaminhada a uma unidade hospitalar em uma maca antes de ser acolhida por familiares. O caso levanta debates sobre a proteção de inquilinos em contratos de aluguel antigos frente às novas dinâmicas do mercado imobiliário.
Disputa judicial e o fim do contrato histórico
A situação de Maricarmen tornou-se insustentável após a venda do prédio para a empresa Renta Corporación, em 2018. O contrato de locação, originalmente firmado pelo pai da idosa em 1956, garantia condições financeiras estáveis que foram alteradas após sucessivas transações imobiliárias. A última proprietária, a Urbagestión, elevou o valor do aluguel para 2.650 euros, montante que superava significativamente a aposentadoria mensal de 1.350 euros recebida pela moradora.
Mesmo com uma redução posterior para 1.650 euros, o custo permaneceu inacessível para a idosa, que insistia em depositar o valor original de 500 euros. A Justiça espanhola decidiu favoravelmente à proprietária, entendendo que o regime de locação antiga não poderia ser mantido por tempo indeterminado após a segunda sucessão familiar. A decisão judicial encerrou a permanência de Maricarmen no apartamento de 92 m².
Mobilização popular e intervenção policial
A execução da ordem de despejo foi marcada por forte resistência. Após três tentativas frustradas, a quarta ação contou com um grande aparato policial que isolou a rua e removeu manifestantes que bloqueavam o acesso ao edifício. Entre os apoiadores presentes estavam figuras públicas como o ator Carlos Bardem e a cantora Ana Belén, que buscavam impedir a retirada da idosa.
Ativistas denunciaram o uso de força e spray de pimenta durante a operação. Em contrapartida, a Delegação do Governo em Madri afirmou que as forças de segurança atuaram estritamente para cumprir uma determinação judicial. O episódio gerou um clima de tensão e indignação entre os moradores da região, que acompanharam o desfecho da operação.
Críticas internacionais e direitos humanos
O caso ganhou repercussão global após a intervenção de órgãos internacionais. Em junho, um comitê da ONU chegou a solicitar a suspensão do despejo ou a garantia de moradia adequada para a idosa. O relator especial da ONU para o direito à moradia, Koldo Casla, classificou a ação como uma violação dos direitos humanos, destacando que o ocorrido coloca a Espanha em uma posição de descumprimento de obrigações internacionais.
Propostas de mediação, incluindo a oferta de uma escritora para arcar com a diferença do aluguel e a tentativa de compra do imóvel pelo órgão público CASA 47, foram recusadas pela proprietária. Após receber alta do hospital Gregorio Marañón, Maricarmen recusou a moradia temporária oferecida pela Comunidade de Madri e optou por residir com parentes. Mais informações sobre o caso podem ser acompanhadas pelo portal A TARDE.
Fonte: atarde.com.br
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