O cenário político contemporâneo atravessa um ciclo de transformação profunda, marcado pelo declínio das estruturas tradicionais como partidos e ideologias. Em sociedades como a brasileira, esse fenômeno ganha contornos de um monumental espetáculo, onde a imagem pessoal dos atores políticos sobrepõe-se ao debate doutrinário. Enquanto democracias consolidadas mantêm distinções claras entre correntes ideológicas, no Brasil, a política parece ser delineada quase exclusivamente pela influência da indústria da comunicação.
A primazia da imagem sobre o conteúdo institucional
A cultura do Estado brasileiro tem sido moldada pela necessidade de validação através dos meios de comunicação. Fatos que não passam pelo crivo da mídia eletrônica ou impressa correm o risco de se tornarem invisíveis, forçando agentes públicos a buscarem constantemente o protagonismo midiático. Essa dinâmica atinge até mesmo o Poder Judiciário, que, ao ampliar sua visibilidade através de canais próprios, expõe magistrados a uma humanização que, embora democrática, levanta questões sobre o uso do espaço público para a construção de perfis pessoais.
O impacto da Constituição de 1988 e o reflexo de Narciso
A Constituição de 1988, embora celebrada como um marco democrático, trouxe em seu bojo um caráter detalhista e corporativista que facilitou a fragmentação do poder. Com o enfraquecimento das grandes lideranças parlamentares históricas, como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, o vácuo foi preenchido por figuras que priorizam a lapidação de sua imagem pública. Esse comportamento, descrito como o “espelho de Narciso”, transforma as instituições em palcos de disputa por atenção, onde o objetivo principal é captar o interesse do público a qualquer custo.
A perversão democrática e o vedetismo político
O desenvolvimento de um Estado midiático, estruturado sobre a personalização do poder, altera a lógica da representação popular. Governantes e legisladores dedicam-se a exercícios de maquiagem política, onde a mídia dita as pautas e o “vedetismo” se impõe como condição de sobrevivência no sistema. Essa relação promíscua entre verba e verbo acaba por canibalizar os escopos partidários, resultando em uma democracia pervertida, na qual a política se torna um exercício de fuga da realidade em prol da autoglorificação.
Para uma análise aprofundada sobre a comunicação e o exercício do poder, consulte as reflexões acadêmicas disponíveis na Universidade de São Paulo. Em última análise, o desafio que se impõe ao político brasileiro é o de retomar a essência da representação, superando o espetáculo para atuar, como sugeria o filósofo Soren Kierkegaard, como uma exceção capaz de enfrentar a realidade com seriedade.
Fonte: metropoles.com
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