Um estudo acadêmico recente revela que os evangélicos que não mantêm vínculos formais com instituições religiosas, conhecidos como desigrejados, demonstram um perfil político e social distinto dos fiéis congregados. A pesquisa, conduzida por especialistas das universidades de Reading, no Reino Unido, e Frankfurt, na Alemanha, indica que este grupo é menos propenso ao bolsonarismo e apresenta índices inferiores de conservadorismo moral em comparação aos evangélicos vinculados a igrejas.
O levantamento, que analisou dados de 1.514 brasileiros, aponta que os desigrejados representam atualmente 18% do total de evangélicos no país. A metodologia classificou como desigrejados aqueles que se autodeclararam evangélicos, mas assinalaram não ser membros de nenhuma denominação específica. Os resultados sugerem que a ausência de uma estrutura institucional rígida pode estar atrelada a uma maior flexibilidade ideológica entre esses indivíduos.
Divergências no conservadorismo e comportamento eleitoral
Na escala de conservadorismo moral, que avaliou temas como aborto, eutanásia e direitos LGBTQIA+, os evangélicos vinculados a igrejas registraram uma média de 7,11 pontos. Entre os desigrejados, essa nota caiu para 5,79, posicionando-os em um patamar de conservadorismo inferior ao dos católicos, que atingiram 5,85 na mesma escala. Essa diferença reflete uma mudança significativa na percepção de valores tradicionais dentro do segmento evangélico.
O comportamento eleitoral também diverge entre os dois grupos. Enquanto cerca de 58% dos evangélicos ligados a instituições mantiveram apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, esse índice recua para 39% entre os desigrejados. Segundo Victor Araújo, professor de Política Comparada na Universidade de Reading e coautor do estudo, os dados indicam um campo com potencial de crescimento para candidaturas de esquerda, como a de Luiz Inácio Lula da Silva, que busca ampliar sua base entre esse eleitorado.
Perfil demográfico e a fluidez da fé
O grupo dos desigrejados é composto majoritariamente por mulheres e jovens com até 35 anos, parcela do eleitorado considerada estratégica. Embora não frequentem templos tradicionais, 93% dos entrevistados afirmam que a religião mantém um papel importante em suas vidas. A prática religiosa desse segmento ocorre de forma descentralizada, por meio de células domésticas ou reuniões informais entre amigos, o que caracteriza uma vivência da fé menos institucionalizada.
A pesquisa aponta ainda que a maioria dos desigrejados é filha de pais evangélicos, marcando uma transição geracional no cenário religioso brasileiro. Entre as hipóteses para esse distanciamento institucional, os pesquisadores destacam a resistência das novas gerações a doutrinas rígidas, o incômodo com a politização excessiva nos cultos e a desilusão com comportamentos de lideranças religiosas, que muitas vezes divergem dos preceitos pregados nas escrituras.
Fonte: metropoles.com
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