Poucos aliados do presidente Lula que apoiaram o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016 expressam arrependimento. Com a aproximação das eleições de 2026, o PT aborda o episódio com pragmatismo, enquanto a maioria dos que votaram pela cassação evita discutir o tema. A Folha de S.Paulo entrevistou 19 lideranças políticas favoráveis ao impeachment, sendo 16 delas congressistas que votaram a favor do processo na Câmara ou no Senado. Doze não se manifestaram ou não responderam, enquanto apenas duas admitiram arrependimento. Uma delas mencionou a fragilidade da justificativa para a cassação, sem comentar sua postura na época. Outras duas lamentaram, mas não afirmaram que agiriam de forma diferente, e duas disseram não se arrepender.
A lista inclui sete ex-ministros do governo Lula, além de dois quadros atualmente filiados ao PT e políticos que o partido considera apoiar nas disputas ao Senado e nas eleições estaduais. A votação na Câmara que possibilitou o afastamento da então presidente completou dez anos em 17 de março.
O vice-presidente e pré-candidato à reeleição, Geraldo Alckmin (PSB), que foi ministro do Desenvolvimento e Indústria, era governador de São Paulo pelo PSDB em 2016. Ele declarou, por meio de sua assessoria, que o impeachment teve uma justificativa frágil, colocando em risco a democracia no Brasil. Alckmin lembrou que, em 2015, a Folha noticiou que ele não via força nas acusações de pedaladas fiscais, que fundamentaram o pedido de cassação. Contudo, não comentou sua declaração de 2017, em que afirmou que o PSDB agiu corretamente ao votar a favor do impeachment.
A deputada federal Marina Silva (Rede-SP), ex-ministra do Meio Ambiente, também defendeu o impeachment e, em 2018, afirmou que não se arrependia de sua posição, alegando que apoiou o impeachment por convicção, considerando que houve crime de responsabilidade. Ela é cotada para concorrer a uma vaga no Senado na chapa do petista Fernando Haddad ao governo paulista, que já conta com Simone Tebet (PSB) como pré-candidata à outra vaga.
Tebet, que foi ministra do Planejamento e deixou o cargo para concorrer em São Paulo a pedido de Lula, era senadora pelo PMDB (atualmente MDB) em 2016. Ela justificou seu voto pelo impeachment pelas consequências nefastas que isso traria para as gerações futuras. O petista José Eduardo Cardozo, advogado de Dilma durante o processo de impeachment, afirmou que é inevitável unir forças políticas para evitar a barbárie, referindo-se à colaboração entre quadros de esquerda e centro desde a eleição de 2022 para derrotar o bolsonarismo.
O senador Carlos Fávaro (PSD-MT), ex-ministro da Agricultura e apoiado pelo PT para se reeleger, era vice-governador de Mato Grosso pelo PP em 2016. Ele viajou a Brasília em abril daquele ano para acompanhar a votação na Câmara e declarou que afirmar que o impeachment foi um golpe é um discurso fácil e desesperado. André de Paula (PSD-PE), ex-ministro da Pesca, também votou pelo impeachment quando era deputado federal. Outros que votaram pela cassação incluem o ex-ministro do Esporte André Fufuca (PP-MA) e o ex-ministro das Comunicações Juscelino Filho (PSDB-MA). Juscelino não se manifestou, enquanto Tebet, Marina, André de Paula, André Fufuca e Carlos Fávaro não responderam às tentativas de contato da Folha.
Um dos apoios que mais geraram descontentamento entre os petistas foi o de Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo e ex-ministra da Cultura no governo Dilma. Ela trocou o PT pelo PMDB em 2015 e, como senadora, votou pelo impeachment, chegando a presentear a advogada Janaina Paschoal, uma das autoras do pedido, com flores. Marta retornou ao PT em 2024 a convite de Lula para ser candidata a vice-prefeita de São Paulo nas eleições municipais, mas não quis comentar seu voto de dez anos atrás.
Cristovam Buarque, que deixou o PT em 2005 após o escândalo do mensalão, também foi criticado pelo partido. Ele votou pela cassação enquanto senador pelo PPS (hoje Cidadania) e afirmou que, como economista, sua decisão foi correta, mas reconheceu que errou como político. Atualmente, ele é pré-candidato a deputado federal pelo PSB de Alckmin e relatou ter sido "massacrado" pelos petistas, mesmo apoiando Lula em 2022 e integrando a chapa do presidente no DF em 2026. Ele afirmou que não se arrepende do que fez, mas lamenta as consequências do impeachment.
A senadora Eliziane Gama (MA), recém-filiada ao PT e pré-candidata à reeleição, admitiu arrependimento pelo voto a favor do impeachment quando era deputada pelo PPS, considerando-o um dos poucos erros de sua carreira política. Ela atribuiu sua mudança de posição à maturidade e à autocrítica de muitos que hoje reconhecem a aberração jurídica que foi o impeachment, segundo o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães (PT-CE), que foi líder do governo na Câmara em 2015 e 2016.
Floriano Pesaro (PSB-SP), diretor de Gestão Corporativa na ApexBrasil, também se arrependeu do voto a favor do impeachment, considerando-o um erro histórico. Ele afirmou que muitos dos que votaram a favor estavam sendo manipulados. O senador Humberto Costa (PT-PE) mencionou uma conspiração contra o PT na época, e José Eduardo Cardozo endossou a ideia de que muitos não queriam se indispor com a opinião pública.
Rodrigo Pacheco (PSB), nome defendido por Lula para o governo de Minas Gerais, também votou pelo impeachment enquanto deputado. Ele declarou que seguiu a decisão do PMDB e da OAB e reconheceu o trauma gerado pela ruptura de um mandato presidencial, considerando que as consequências não foram as melhores. Os senadores Renan Calheiros (MDB-AL), Eduardo Braga (MDB-AM), Eunício Oliveira (MDB-CE) e Omar Aziz (PSD-AM) também votaram pelo impeachment e atualmente discutem chapas com o PT em seus estados. Apenas Aziz é pré-candidato a governador, enquanto os outros buscam a reeleição.
Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que foi eleito presidente do Senado em 2025 com o apoio do PT, votou pelo impeachment em 2016, afirmando que o processo era legítimo. Renan não respondeu às mensagens da Folha, enquanto Alcolumbre declarou que não atua como aliado nem como oposição, sem mencionar sua postura durante o impeachment. Os demais também não comentaram seus votos.
O PT está avaliando apoiar a pré-candidatura de Acir Gurgacz (PDT) ao Senado em Rondônia. Gurgacz afirmou que não se arrepende de seu voto, alegando ter seguido pesquisas que indicavam que a maioria do eleitorado de seu estado era favorável ao impeachment. A senadora Professora Dorinha Seabra (União Brasil-TO), pré-candidata ao governo do Tocantins, é vista como um nome a ser apoiado pelo PT, mas afirmou que sua atuação será independente, independentemente do apoio do partido, e não se arrependeu do voto que deu enquanto deputada, considerando-o uma decisão institucional em meio a uma grave crise econômica e política. Colaboraram Guilherme Matos, Malu Araujo e Mariana Grasso, de São Paulo.
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