No comando do Master, Daniel Vorcaro explorou brechas regulatórias e falhas na fiscalização para comprometer os sistemas de controle do sistema bancário, da investigação policial e da Justiça no Brasil. A repercussão do caso e as descobertas recentes, que incluem o envolvimento de ministros do STF, geraram uma onda de revisão de normas para fechar os pontos cegos que possibilitaram a maior fraude bancária da história do país. CEOs de bancos, representantes do setor, investigadores e integrantes de órgãos reguladores, que falaram sob anonimato, afirmam que o aperto nas normas está apenas começando e que ainda há muito a ser feito para evitar a repetição de casos como o do Master.
Esse processo de revisão pode levar anos e envolve uma reforma abrangente do arcabouço regulatório, que não se limita a bancos e fundos de investimento, mas também abrange regras de conduta de juízes, a lei da magistratura, procedimentos para investigar ministros do STF e o papel do TCU. O diagnóstico atual indica que a revisão normativa é lenta e, em alguns casos, inexistente. A reforma do Judiciário, por exemplo, deve ser adiada até após a campanha eleitoral, enquanto as resistências às medidas começam a se manifestar. Uma aceleração nas mudanças pode ocorrer com o avanço das investigações, que exigirão respostas rápidas, conforme integrantes da Polícia Federal.
O Banco Central já iniciou a revisão de normas relacionadas à garantia do FGC e estuda uma revisão mais ampla de seu arcabouço legal. Em contraste, a CVM enfrenta um momento de inércia, marcada por disputas internas e um colegiado decisório incompleto, com meses de interinidade na presidência. O órgão regulador do mercado de capitais não conseguiu fiscalizar o esquema de fraudes do Master, que contava com o apoio de fundos de investimento, e apenas em fevereiro criou um grupo de trabalho para investigar falhas na atuação do Master. Apesar de indícios de vazamento de informações para Vorcaro, a CVM só abriu uma sindicância após ser contatada pela Folha. A CVM afirmou que não havia sido formalmente comunicada sobre vazamentos e que iniciará uma apuração rigorosa.
O Congresso, que costuma reagir rapidamente a temas de grande impacto social, também está parado em relação ao caso Master. Até o momento, não houve aprovação de propostas legislativas para combater as falhas que facilitaram as fraudes. A atuação do Parlamento se limitou a vazamentos de informações do banco por meio de CPIs. As discussões no Congresso foram marcadas por embates com ministros do STF, especialmente após o senador Alessandro Vieira propor o indiciamento de três ministros, atribuindo-lhes crimes de responsabilidade. A proximidade de lideranças partidárias com o dono do Master e o ano eleitoral dificultam qualquer ação, conforme admitido por integrantes do Senado e da Câmara.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, tentou aprovar um projeto de lei para aprimorar os instrumentos do Banco Central, mas a votação não avançou devido a resistências, inclusive do PT. A PEC de autonomia financeira do BC ainda não foi aprovada e enfrenta dificuldades, mesmo com o pedido de socorro do presidente do BC, Gabriel Galípolo. A indicação de Otto Lobo à presidência da CVM está parada no Senado. No Judiciário, a resistência é maior, especialmente em meio à crise de imagem do STF. O ministro Flávio Dino propôs uma nova reforma do Poder Judiciário, gerando embates com o grupo do presidente da corte, Edson Fachin.
Regras mais rígidas para investimentos de regimes próprios de previdência de estados e municípios foram aprovadas rapidamente no final de 2025, mas enfrentam resistências desde que entraram em vigor em fevereiro. Essas mudanças limitam os investimentos a títulos públicos soberanos, a menos que atendam a padrões de governança que apenas 8% dos fundos cumprem. No setor bancário, as medidas avançam, ainda que lentamente. O CMN aprovou regras para captações com garantia do FGC, exigindo que os recursos sejam lastreados em ativos de maior qualidade. O Banco Central decidiu reforçar a supervisão, alocando 25% dos novos servidores em departamentos de fiscalização.
Embora as mudanças sejam bem-vindas, dirigentes de bancos consideram-nas insuficientes. A dimensão do caso Master evidenciou a necessidade de mudanças para mitigar riscos, como a compra de precatórios e o uso do FGC como estratégia de negócios. O Banco Central parece finalmente convencido e está adotando medidas discutidas há mais de cinco anos. Entre as novas propostas, está a limitação do uso de fundos que compram outros fundos, como ocorreu no caso do Master. Atualmente, se um banco quebra, é possível cobrar perdas do patrimônio pessoal do controlador, mas se o controlador for um fundo, a cobrança é limitada ao patrimônio do fundo, sem afetar os cotistas.
Outra medida em estudo visa impedir que investidores com grande quantidade de ações de um banco não façam parte do grupo de controle. Isso ocorreu no Master, onde Augusto Lima, sócio de Vorcaro, teve uma participação elevada, mas não pertencia ao grupo de controle. Espera-se que novas regras contenham o avanço dos chamados bancos sintéticos, como o Master, que captam recursos apenas por meio de plataformas de venda de terceiros, sem clientes diretos. Quando esses bancos captam dinheiro, investem em cotas de fundo com várias camadas, um modelo mais barato de operar, pois o risco é coberto pelo FGC. Também se busca aumentar a transparência sobre a remuneração paga pelos bancos na distribuição de papéis como CDBs, que no caso do Master pode ter chegado a 5%.
Após mais de cinco meses, o caso Master avança, mas ainda há muitas perguntas sem resposta. Por que os nomes de políticos com relações com Vorcaro ainda não apareceram nas investigações? Os ministros do STF envolvidos no caso serão investigados? Por que há uma reação para limitar a atuação do Coaf? Até onde o ministro relator André Mendonça acompanhará a investigação e quando levará o caso ao colegiado do STF? E, finalmente, onde está o dinheiro das fraudes de Vorcaro?
28 de novembro de 2025: Justiça manda soltar Vorcaro e outros quatro investigados na 1ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada 10 dias antes pela PF. 2 de dezembro: Dias Toffoli, do STF, impõe o grau máximo de sigilo às investigações. 3 de dezembro: Toffoli decide que as diligências e medidas relacionadas à investigação contra Vorcaro e Master devem ser avaliadas por ele. 9 de dezembro: O Globo revela que o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, firmou contrato com o Master de R$ 129 milhões. 9 de dezembro: O ministro do TCU, Jhonathas de Jesus, dá prazo de até 72 horas para o BC explicar a decisão de liquidar o Master. 24 de dezembro: Toffoli determina uma acareação entre Vorcaro, Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do BC, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. 30 de dezembro: A acareação é realizada. 31 de dezembro: Folha revela que o BC acionou o MPF após identificar indícios de fraude em negócios do Master. 5 de janeiro: A indústria financeira se une em apoio ao BC após determinação do presidente do TCU para inspeção in loco da documentação do Master. 6 de janeiro de 2026: Folha revela que ativos podres do antigo banco de SC alimentavam o esquema de fraudes do Master. 9 de janeiro de 2026: Folha revela os seis principais fundos investigados no caso Master. 11 de janeiro de 2026: Reportagem da Folha revela que empresas de parentes de Toffoli tiveram como sócio fundo ligado a suspeitas no caso Master. 14 de janeiro de 2026: PF deflagra 2ª fase da Operação Compliance Zero. 15 de janeiro de 2026: BC decreta liquidação da Reag. 21 de janeiro de 2026: BC decreta liquidação do Will Bank de Vorcaro. 28 de janeiro de 2026: Toffoli autoriza abertura de inquérito para apurar a rede de influenciadores usada para descredibilizar o BC. 30 de janeiro de 2026: A PF abre investigação sobre gestão fraudulenta no BRB e da holding financeira Fictor. 9 de fevereiro de 2026: O diretor-geral da PF entrega relatório ao presidente do STF, mostrando troca de mensagens entre Vorcaro e seu cunhado. 11 de fevereiro de 2026: Toffoli admite que recebeu dinheiro por ser sócio da empresa Maridt. 12 de fevereiro de 2026: Toffoli deixa a relatoria do caso Master. 4 de março de 2026: Vorcaro é preso na 3ª fase da operação Compliance Zero. 4 de março de 2026: Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, integrante da milícia de Vorcaro, se enforca na cela da PF. 6 de março de 2026: Mensagens extraídas do celular de Vorcaro revelam sua influência entre os três Poderes. 19 de março de 2026: Vorcaro assina termo de confidencialidade para delação. 23 de março de 2026: A CGU abre processo contra Paulo Sergio e Belline Santana. 31 de março de 2026: BRB não divulga balanço no prazo. 16 de abril de 2026: Paulo Henrique Costa é preso na 4ª fase da operação Compliance Zero. 18 de abril de 2026: TJSP aceita pedido de recuperação judicial da Fictor. Este é o quinto e último capítulo de uma série sobre a derrocada do Banco Master, que aborda episódios anteriores ao momento em que o BRB chamou a atenção do mercado financeiro ao anunciar a compra de uma fatia do banco de Daniel Vorcaro e avança sobre detalhes revelados nas investigações sobre a maior fraude bancária da história do Brasil.
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