O jumento, animal historicamente fundamental para o transporte de cargas e o fortalecimento da economia no Nordeste brasileiro, tornou-se alvo de um mercado internacional bilionário. Impulsionada pela demanda chinesa, a exploração desses animais foca tanto na carne, consumida como iguaria, quanto na pele, matéria-prima essencial para a produção do ejiao, uma gelatina utilizada na medicina tradicional chinesa por suas supostas propriedades rejuvenescedoras.
Apesar da relevância comercial para exportadores, o setor enfrenta críticas severas de especialistas e ambientalistas. O abate em larga escala ameaça a sobrevivência da espécie no Brasil, repetindo um cenário de esgotamento populacional observado anteriormente no continente africano, onde a União Africana precisou decretar uma moratória de 15 anos para conter o desaparecimento dos animais.
A complexa dinâmica do mercado chinês e a pressão sobre a espécie
A busca pelo colágeno extraído da pele do jumento movimenta valores expressivos no mercado global, com o quilograma do composto podendo atingir até US$ 920. De acordo com a organização The Donkey Sanctuary, a produção desse insumo exige o abate de aproximadamente 6 milhões de animais anualmente em todo o mundo. No Brasil, a situação é agravada pela falta de uma cadeia produtiva estruturada e pela ausência de incentivos governamentais que garantam a sustentabilidade da criação.
Além da pele, o leite de jumenta tem ganhado destaque científico devido ao alto teor de peptídeos bioativos com propriedades antioxidantes. Estudos da FEA-Unicamp apontam o valor nutricional do produto, que chega a ser comercializado por preços elevados na Europa. Contudo, essa valorização não se traduz em benefício econômico para o setor agropecuário brasileiro, que opera com margens de lucro ínfimas para os produtores locais.
Inviabilidade econômica e falta de sustentabilidade produtiva
Estudos conduzidos na Esalq/USP indicam que a criação de jumentos para abate no Brasil carece de viabilidade econômica. Diferente de bovinos ou caprinos, os asininos apresentam um ciclo de produção ineficiente: a gestação dura cerca de 12 meses e o animal necessita de dois a três anos para atingir o peso ideal de abate. Esse longo período eleva o custo de produção para aproximadamente R$ 2 mil, valor muito superior ao preço de mercado do animal vivo, que gira em torno de R$ 180.
A contribuição da indústria de abate para as exportações brasileiras é considerada insignificante, representando menos de 0,000003% do total. Municípios que sediam abatedouros, como Amargosa, na Bahia, não registraram crescimento econômico ou aumento na arrecadação de impostos decorrentes dessa atividade. Para especialistas, o sistema atual sobrevive apenas por meio de práticas extrativistas que ignoram normas de saúde veterinária e controle de trânsito animal.
Geopolítica e os impasses na regulação do setor
Embora o meio científico aponte a inviabilidade da atividade, o abate de jumentos em frigoríficos certificados com SIF permanece legal no Brasil, amparado por uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região datada de 5 de novembro de 2025. A manutenção dessa prática, segundo analistas, está atrelada a interesses geopolíticos na relação comercial com a China, que prefere evitar atritos diplomáticos em nome de parcerias estratégicas mais amplas.
A fragilidade do sistema, marcada pela ausência de subsídios e pela exploração predatória, coloca o jumento nordestino em risco iminente de extinção. Enquanto o debate jurídico e científico avança, o país mantém um modelo de exportação que, segundo pesquisadores, não deixa valor agregado significativo em território nacional, sacrificando um patrimônio cultural e biológico em nome de uma demanda externa volátil. Para mais detalhes sobre a produção científica, consulte a Universidade de São Paulo.
Fonte: atarde.com.br
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