Em Salvador, a produção teatral voltada para o público infantojuvenil enfrenta um dilema que transcende o palco: a persistente percepção de que o gênero seria uma categoria de menor importância. Artistas e pesquisadores locais apontam que, embora a qualidade estética tenha avançado, a arte para crianças ainda sofre com a escassez de cobertura crítica e dificuldades na captação de recursos, sendo frequentemente tratada como um segmento secundário pela classe artística e pela imprensa.
A atriz e diretora Débora Landim, doutora em Teatro pela Ufba, define essa visão como um equívoco que ignora o rigor necessário para a criação voltada à infância. Segundo ela, o teatro feito com empenho e talento não pode ser medido por uma hierarquia que privilegia o drama adulto, mas sim pelo impacto sensível que provoca no espectador. Esse incômodo é compartilhado por nomes como Gil Santana, que acumula mais de 45 anos de trajetória dedicados ao setor.
A invisibilidade na crítica e nos mecanismos de fomento
Para Gil Santana, a hierarquia informal entre o que é considerado “teatro sério” e “teatro de criança” reflete-se na prática cotidiana. O encenador aponta que a cobertura jornalística é rara e, quando ocorre, frequentemente prioriza montagens externas em detrimento da produção local. Essa falta de visibilidade, segundo ele, reforça o estigma de que o trabalho seria apenas uma forma de entretenimento passageiro, ignorando seu papel fundamental na formação cultural.
Débora Landim complementa que, embora a superação estética seja um fato entre os produtores baianos, o preconceito sobrevive onde o capital circula. A dificuldade de acesso a editais de fomento, tanto públicos quanto privados, é um obstáculo constante. Para muitos realizadores, a sobrevivência da cena depende de recursos próprios e de uma resiliência que beira o ativismo, tratando a arte como uma ferramenta de transformação social.
Pluralidade formal e o diálogo com a infância contemporânea
A dramaturga Luciana Comin, do Grupo Teca, traz um olhar crítico sobre a própria produção soteropolitana. Ela avalia que o cenário ainda é restrito e carece de maior pluralidade formal, com muitas montagens presas a fábulas conservadoras que pouco desafiam o crivo das crianças. Para o grupo, o teatro deve ser um “jogo” horizontal, onde a criança é convidada a participar ativamente da cena, em vez de ser apenas uma espectadora passiva.
Essa lógica de interação real é o motor de espetáculos como Fala, Ìbejí, do Cooxia Coletivo Teatral. Com direção de Guilherme Hunder, a obra utiliza referências afro-diaspóricas e a estrutura de roda para aproximar o público da narrativa. Ao abordar temas complexos como a morte através de uma perspectiva lúdica e comunitária, o espetáculo demonstra que o teatro infantil pode ser um campo de reflexão profunda e não apenas um exercício decorativo.
O papel do teatro na formação de repertório
O musical Maria vai com as Outras, parte do Circuito Pracriança, exemplifica como a qualidade musical e a direção atenta podem seduzir públicos de todas as idades. O ator Diogo Lopes Filho destaca que a espontaneidade infantil é o elemento que torna esse trabalho único. Para ele, a arte abre canais essenciais para o desenvolvimento, transformando objetos simples em histórias ricas e experiências que compõem o repertório de vida da criança.
Em última análise, o teatro para infâncias em Salvador resiste como uma forma de luta. Como sintetiza Débora Landim, a relevância de uma peça não reside na idade do público, mas na sua capacidade de revolucionar, ainda que minimamente, a vida de quem a assiste. O desafio, portanto, permanece em romper as barreiras do preconceito institucional e garantir que essa arte ocupe o lugar de protagonismo que sua complexidade exige.
Fonte: atarde.com.br
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