A crise ambiental contemporânea transcendeu os danos físicos a ecossistemas, florestas e centros urbanos, revelando um impacto profundo na psique da população. Um estudo científico conduzido pela Natura em parceria com a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) aponta que 40% dos brasileiros apresentam sinais clínicos de ansiedade diretamente associados à degradação do meio ambiente.
Metodologia e o surgimento da solastalgia no Brasil
O Projeto Apoena, desenvolvido pela área de Ciências do Bem-Estar & Neurociências da Natura, utilizou inteligência artificial e neurociência para investigar como eventos climáticos extremos e a perda da biodiversidade afetam o bem-estar emocional. A pesquisa validou a BSS-Br, a primeira escala brasileira voltada a medir a solastalgia, termo técnico que descreve o sofrimento psicológico causado pela degradação do ambiente onde o indivíduo reside.
Aplicada a 1.750 participantes, a ferramenta revelou que 44,7% dos entrevistados pontuam acima do limiar clínico para ansiedade. Com uma média de 3,90 em uma escala de 1 a 5, o estudo identificou que o sofrimento é mais acentuado em áreas urbanas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, onde a preocupação com o desaparecimento definitivo da natureza foi relatada por 88% dos participantes.
Marcas do sofrimento ambiental na voz humana
Uma das descobertas mais inovadoras da pesquisa reside na análise acústica da voz. Os pesquisadores processaram 68 características sonoras de áudios gravados pelos respondentes e identificaram padrões vocais que se correlacionam com níveis elevados de sofrimento ecoafetivo. Dez fatores distintos foram capazes de explicar 57% da variação nos indicadores de bem-estar subjetivo dos indivíduos.
O Professor Dr. Lucas Murrins, da FCMSCSP, destaca que a voz atua como um registro de mudanças fisiológicas e emocionais muitas vezes imperceptíveis. Essa evidência abre caminhos para o desenvolvimento de ferramentas de monitoramento preventivo, utilizando sons corporais como tosse ou respiração para acompanhar populações vulneráveis afetadas por secas, enchentes e outras catástrofes climáticas.
O papel da rotina e do autocuidado na resiliência
Diante das incertezas climáticas, o estudo observou que a rotina doméstica tornou-se um refúgio para a manutenção do equilíbrio emocional. Para 47,9% dos participantes, permanecer em casa para descanso e lazer é a principal estratégia de enfrentamento. O banho diário e o autocuidado com a pele e cabelos foram citados por 87% e 71,9% das mulheres, respectivamente, como práticas fundamentais de reequilíbrio.
A pesquisa também reforça que o contato direto com elementos naturais, como o cultivo de plantas em ambientes residenciais, está associado a indicadores de bem-estar mais positivos. Manuel Rios, diretor executivo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Natura, enfatiza que o projeto traduz a ciência em ações capazes de orientar novas formas de promover saúde em um cenário de transformações globais.
Fonte: calilanoticias.com
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