As investigações sobre o Banco Master devem se estender até o período de campanha, levando o ministro André Mendonça, do STF, a tomar decisões que podem impactar o cenário político antes das eleições gerais. Auxiliares do magistrado reconhecem que essa situação é inevitável, considerando o possível envolvimento de autoridades com foro nas fraudes financeiras.
No Congresso Nacional, a nova prisão do banqueiro Daniel Vorcaro e o avanço do inquérito do INSS sobre um dos filhos do presidente Lula reforçaram a percepção entre políticos do centrão de que Mendonça, relator dos dois casos, terá um papel decisivo nas eleições de outubro. Mensagens interceptadas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro revelam suas relações com diversas figuras políticas. Ele se referiu ao presidente do PP, senador Ciro Nogueira, como um "grande amigo de vida", mencionou um jantar na residência oficial do presidente da Câmara, Hugo Motta, e afirmou que um encontro com Lula foi "ótimo".
Governo e oposição preveem uma disputa acirrada entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro, que aparecem empatados em algumas pesquisas de intenção de voto para o segundo turno. Políticos em Brasília avaliam que a margem de diferença será semelhante à da eleição presidencial de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro por 50,9% a 49,1%. Nesse contexto, qualquer fato pode influenciar a eleição, e Mendonça supervisiona os inquéritos que geram mais inquietação atualmente. Um deputado do centrão resumiu a situação, afirmando que, enquanto alguns ministros possuem armas pesadas, Mendonça tem "duas bombas atômicas".
Mendonça tem afirmado a interlocutores que, idealmente, decisões de grande impacto, como ordens de prisão preventiva, devem ser evitadas durante o período eleitoral. No entanto, ele considera que, devido à gravidade dos crimes investigados nos casos Master e INSS, estaria disposto a enfrentá-los, mesmo que suas decisões possam ser exploradas politicamente. Ao assumir a relatoria da investigação sobre o Banco Master em 12 de fevereiro, Mendonça constatou que 111 celulares apreendidos pela Polícia Federal estavam praticamente intocados, o que indica que ainda há muito material a ser analisado.
A reação inicial dos parlamentares do centrão à nova prisão de Vorcaro foi mista. Alguns expressaram receio de que as eleições sejam influenciadas por operações policiais e pela interferência do Judiciário, o que poderia afetar também as cúpulas de União Brasil e PP. Outros acreditam que Vorcaro pode ameaçar com uma delação premiada, que teria como alvo o próprio STF. A Polícia Federal encontrou menções a Dias Toffoli no celular de Vorcaro, levando a corporação a questionar a imparcialidade do ministro, que era o relator do caso Master. O Supremo afastou essa possibilidade, mas Toffoli optou por se afastar do processo, negando ter recebido dinheiro de Vorcaro ou ter qualquer relação de amizade com ele.
Outro ponto de desgaste para a imagem do Supremo é o contrato de R$ 3,6 milhões mensais firmado pelo Banco Master com o escritório da advogada Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Moraes afirma que magistrados estão formalmente impedidos de julgar casos em que seus parentes atuem como advogados. Parlamentares do centrão argumentam que eventuais denúncias contra o Supremo podem prejudicar o PT nas eleições, devido à narrativa bolsonarista de que os ministros mais afetados são aliados do governo Lula, além do impacto negativo que a percepção de corrupção pode ter sobre a imagem do governo.
Um petista admitiu que essa narrativa não é favorável para Lula, pois coloca o Supremo sob suspeita e reforça a teoria de que o julgamento de Bolsonaro teve motivação política. Outra consequência negativa para o governo é o clima de tensão elevado em Brasília. Ao contrário dos primeiros anos do governo Lula, ministros do STF têm criticado o presidente nos bastidores. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, cujos aliados estão sendo investigados pela PF, tem imposto derrotas ao Executivo.
Mendonça, segundo avaliações de políticos do centrão, terá poder para influenciar a eleição presidencial, pois pode determinar o ritmo das investigações e a divulgação de informações sobre a cúpula do poder em Brasília. O ministro foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e mantém relações próximas com lideranças conservadoras e religiosas, que o apoiaram em sua indicação, apesar da oposição de Alcolumbre, que atrasou sua sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
Petistas confiam no perfil moderado de Mendonça, acreditando que não haverá perseguições e que a imagem do STF está em jogo. No entanto, alguns afirmam que o ministro não está imune a influências políticas, como quando pediu vista da ação penal contra o deputado Silas Câmara, líder da bancada evangélica, que era acusado de apropriação de salários de assessores, o que possibilitou a prescrição do processo.
Há preocupações entre os petistas sobre a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, para investigar se ele recebeu dinheiro do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Sob a relatoria de Mendonça, a PF terá informações para verificar qual versão é verdadeira: a denúncia de que Lulinha teria recebido R$ 300 mil mensais como sócio oculto do lobista ou a defesa, que nega os pagamentos e afirma que Lulinha tinha outros negócios com Careca que não envolviam dinheiro público.
Um dirigente petista minimizou os danos das operações sobre Lula, afirmando que o presidente pode argumentar que deixou a PF investigar livremente e que seu governo não foi conivente com a corrupção, mesmo quando as apurações se aproximaram de seu filho.
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