O longa-metragem Jardim dos Silêncios, dirigido por Henrique Dantas, chega ao Festival do Rio nesta segunda-feira, 5, após uma trajetória internacional que incluiu exibição no American Black Film Festival, nos Estados Unidos. A obra marca um momento de maturidade na carreira do cineasta baiano, que transita da experiência consolidada em documentários para uma narrativa de ficção profunda sobre luto, identidade e as marcas deixadas pelo passado familiar.
A trama acompanha Tuã, interpretado por Fabrício Boliveira, um médico oncologista que construiu sua vida na Itália após fugir do Brasil durante a Ditadura Militar, período em que perdeu o pai. O retorno ao país é motivado por um chamado urgente: sua avó, residente no litoral sul baiano, enfrenta um câncer terminal. O reencontro em Ilhéus força o protagonista a confrontar traumas silenciados e a complexa dinâmica de uma família marcada por segredos políticos e espirituais.
Conflitos geracionais e o peso do passado em Ilhéus
O roteiro explora o arquétipo do filho pródigo sob uma lente contemporânea, onde o choque geracional se torna o motor da narrativa. Ao chegar em Ilhéus, Tuã é confrontado por duas figuras antagônicas: a avó, vivida por Helena Ignez, que representa o afeto e a compreensão, e o avô, interpretado por Luiz Pepeu, cuja postura conservadora entra em rota de colisão com os ideais que vitimaram o pai do protagonista.
O cineasta ressalta que o projeto nasceu de uma inquietação pessoal diante da morte, após vivenciar uma sucessão de perdas em um curto período. Esse sentimento de entorpecimento diante do luto foi transposto para o personagem de Fabrício Boliveira, que lida diariamente com a finitude na oncologia. A tensão é amplificada pela presença da namorada italiana, Federica de Benedittis, que traz uma nova perspectiva sobre o futuro ao revelar uma gravidez, forçando Tuã a equilibrar as pendências do passado com as responsabilidades que se avizinham.
A construção da identidade e o atravessamento racial
Um dos pilares centrais de Jardim dos Silêncios é a exploração da religiosidade de matriz africana, que permeia o universo familiar de forma velada. O título da obra faz referência a um espaço sagrado na floresta, que funciona como um repositório de memórias e desacordos. Através desse resgate, o protagonista não apenas descobre a história política de seus ancestrais, mas também se reconecta com uma herança cultural da qual esteve afastado durante anos no exterior.
A escolha de Fabrício Boliveira para o papel principal foi um ponto de virada para a produção. Henrique Dantas destaca que a questão do atravessamento racial foi fundamental, observando a raridade de ver médicos negros em posições de destaque na sociedade brasileira. A conexão emocional do ator com a trajetória de Tuã consolidou a parceria, transformando o filme em uma obra autoral que reflete as vivências e as inquietações de um realizador profundamente ligado às raízes baianas. Para mais informações sobre o cenário cinematográfico nacional, acompanhe as atualizações em A TARDE.
Fonte: atarde.com.br
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