O aumento significativo nas importações de botijões de gás de cozinha da China, impulsionado pelo programa federal Gás do Povo, gerou uma disputa comercial entre fabricantes nacionais e distribuidoras que importam o produto. As importações de botijões chineses saltaram de 29 mil unidades em 2025 para 515 mil no primeiro semestre deste ano, conforme dados da Mangels, principal fabricante nacional.
O setor nacional, que adquire cerca de 2 milhões de botijões anualmente para reposição, indica que pelo menos um em cada quatro botijões vendidos no Brasil atualmente é de origem chinesa. Em resposta a essa situação, a Mangels solicitou ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) que aumente o imposto de importação desses produtos de 12,6% para 25%.
Por outro lado, o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás) argumenta que as importações são necessárias devido à incapacidade da indústria brasileira de atender rapidamente à demanda crescente. Essa situação é resultado da reestruturação do mercado causada pelo Gás do Povo, que oferece acesso gratuito a botijões de gás para cerca de 15 milhões de famílias de baixa renda. Os vales para a retirada gratuita de botijões de 13 kg são disponibilizados no dia 10 de cada mês em revendas credenciadas.
Para atender à demanda, as distribuidoras começaram a aumentar seus estoques e buscar novos fornecedores. O Sindigás havia defendido, meses atrás, a eliminação temporária da tarifa de importação dos botijões, mas agora, com o aumento das compras da China, a indústria nacional pede a elevação do imposto sobre os produtos importados.
A Mangels aponta uma distorção nas tarifas criada pela política tarifária do governo. A Camex, vinculada ao Mdic, aumentou a tarifa de importação de chapas de aço e insumos para 25%, mas manteve a tarifa dos botijões de GLP em 12,6%. A empresa argumenta que isso torna mais vantajoso importar botijões prontos do que produzi-los no Brasil. A Mangels afirma que o aço representa cerca de 72% do custo das matérias-primas e 57% do custo total de produção dos botijões. A empresa considera que a diferença nas tarifas compromete a indústria nacional, especialmente em um momento de crescimento esperado devido ao programa social.
Além disso, a Mangels destaca que a capacidade de produção de aço da China, que alcançou 991 milhões de toneladas em 2024, em comparação com 31,5 milhões de toneladas do Brasil, permite que os fabricantes chineses ofereçam preços muito mais baixos. A empresa acredita que não há necessidade de importar para atender ao Gás do Povo, pois a indústria nacional tem capacidade para fabricar até 8 milhões de botijões por ano, volume suficiente para a demanda.
A posição da Mangels é apoiada por outras siderúrgicas e pelo Instituto Aço Brasil. No entanto, as distribuidoras discordam. O presidente do Sindigás, Sérgio Bandeira de Mello, esclarece que o problema não é a falta de capacidade instalada, mas sim a dificuldade de entrega em curto prazo. Ele menciona que as distribuidoras enfrentaram problemas de fornecimento no final do ano passado, com fabricantes nacionais reduzindo entregas programadas, o que forçou as empresas a recorrer ao mercado internacional.
Mello afirma que as distribuidoras pagaram preços mais altos pelos botijões importados da China devido à urgência de obter o produto. Ele ressalta que a tarifa de 25% sobre o aço importado não justifica o aumento do imposto sobre os botijões, uma vez que o setor utiliza principalmente chapa de aço nacional e não enfrenta escassez desse insumo. Mello enfatiza que o verdadeiro gargalo é a capacidade de produção e que, se a indústria nacional apresentar os botijões, as importações cessarão.
O Mdic informou que o pedido da Mangels está em análise técnica. Após essa fase, o processo será enviado ao Comitê de Alterações Tarifárias e, em seguida, ao Comitê Executivo de Gestão da Camex, que tomará a decisão final sobre a possível alteração da alíquota de importação. A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) não se manifestou sobre o assunto, e o Instituto Aço Brasil não fez comentários até a publicação desta reportagem.
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