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Uma barragem no Estreito de Bering pode salvar uma corrente oceânica – ou piorar tudo

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Uma barragem no Estreito de Bering pode salvar uma corrente oceânica – ou piorar tudo

Uma proposta considerada extrema por cientistas voltou a ser discutida no contexto das mudanças climáticas: a construção de uma barragem no Estreito de Bering, que conecta os oceanos Pacífico e Ártico. O objetivo é preservar a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), uma corrente oceânica fundamental para a regulação do clima global. Essa corrente é responsável por manter temperaturas amenas no norte da Europa, estabilizar o nível do mar na costa atlântica da América do Norte e permitir que os oceanos absorvam parte do dióxido de carbono da atmosfera, contribuindo para a redução do aquecimento global em aproximadamente 0,2 grau. No entanto, há indícios de que a AMOC está enfraquecendo e pode colapsar ainda neste século.

A proposta de intervenção no Estreito de Bering se baseia em evidências históricas que mostram que, em períodos em que a passagem esteve naturalmente bloqueada, a circulação atlântica apresentou maior estabilidade. Isso ocorre porque a água que flui do Pacífico para o Ártico é relativamente doce, influenciando o equilíbrio salino no Atlântico Norte, um fator essencial para o funcionamento da AMOC. Pesquisadores da Universidade de Utrecht realizaram simulações computacionais para testar essa hipótese, e os resultados, publicados na revista Science Advances, indicam que o bloqueio artificial do estreito poderia ajudar a estabilizar a corrente oceânica, desde que a intervenção ocorra enquanto a AMOC ainda opera em níveis normais.

Entretanto, se a corrente já estiver significativamente enfraquecida, a construção da barragem poderia agravar a situação. Nesse caso, o bloqueio tenderia a aumentar a formação de gelo no Ártico, reduzindo a evaporação e tornando a água ainda menos salgada, o que prejudicaria a AMOC. Os pesquisadores identificaram um ponto crítico: se a corrente cair abaixo de 16,4 milhões de metros cúbicos por segundo, a intervenção deixaria de ser eficaz e passaria a ter efeito contrário. Há incertezas sobre se esse limite já foi atingido.

Apesar dos resultados promissores, os cientistas ressaltam limitações importantes. O estudo é baseado em modelagem, sem possibilidade de testes diretos em escala real, e a barragem não resolveria o problema por completo, já que o derretimento da Groenlândia, impulsionado pelas mudanças climáticas, continuaria sendo uma ameaça central. Do ponto de vista técnico, o projeto apresenta desafios significativos, pois o Estreito de Bering tem cerca de 82 quilômetros de largura e profundidade média de 50 metros. A construção seria teoricamente viável, mas exigiria uma obra de grande escala em uma região remota e de difícil acesso, além de uma estrutura capaz de suportar fortes correntes oceânicas.

Adicionalmente, questões geopolíticas complicam ainda mais a proposta, uma vez que parte significativa da área necessária para a barragem está sob controle da Rússia. A possibilidade de um único país influenciar uma infraestrutura com impacto global adiciona complexidade ao projeto. Também existem preocupações ambientais, pois a construção de uma barragem nessa região poderia afetar espécies migratórias, como baleias, e alterar ecossistemas sensíveis. O estudo, portanto, reforça a complexidade do sistema climático e os riscos associados a intervenções em larga escala.


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