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Vidas nas ruas de Salvador: relatos revelam os dramas por trás da invisibilidade

Vidas nas ruas de Salvador: relatos revelam os dramas por trás da invisibilidade

A paisagem urbana de Salvador esconde realidades complexas que muitas vezes passam despercebidas pela rotina apressada dos cidadãos. Por trás de cada pessoa em situação de rua, existe uma trajetória marcada por perdas, escolhas, vínculos e, frequentemente, o peso da dependência química. A reportagem ouviu três histórias que ilustram a diversidade de motivos que levam indivíduos a ocupar as calçadas da capital baiana, desafiando a visão simplista sobre o fenômeno.

Trajetórias de vida e o ciclo da dependência

Para Adalberto Santos, conhecido como Coroa, as ruas são um cenário familiar há quase quatro décadas. Aos 50 anos, ele relata que a convivência difícil com a família na infância o empurrou para o convívio nas calçadas, onde buscou o afeto que não encontrava em casa. Atualmente, ele enfrenta o desafio da dependência química, reconhecendo que parte de seus recursos mensais é destinada ao vício, o que impede a conquista de uma moradia estável.

Márcio, por sua vez, chegou à situação de rua após uma sucessão de lutos. Cantor e compositor, ele viu sua estrutura familiar ruir com a perda dos pais, de um filho e, mais recentemente, da esposa. O preconceito é uma das maiores barreiras que ele enfrenta diariamente, sentindo-se desumanizado pela sociedade. Embora lute contra o vício, ele admite a dificuldade de romper o ciclo, encontrando na música um fio condutor para manter viva a conexão com sua identidade anterior.

A busca por subsistência e o desafio da assistência

Nem todas as pessoas em situação de rua compartilham o mesmo perfil. Denise Conceição, aos 68 anos, possui um teto, mas utiliza as ruas como ponto de apoio para obter doações de alimentos e roupas. Sem aposentadoria ou renda fixa, ela busca suprir as necessidades de suas duas filhas e seis netos, esforçando-se para proteger a família dos riscos inerentes ao ambiente urbano onde circula diariamente.

A complexidade do atendimento social é confirmada por especialistas. Ivana Ramos, assistente social e coordenadora do Serviço Especializado em Abordagem Social, ressalta que políticas públicas, como auxílio-moradia e programas de empregabilidade, são fundamentais, mas dependem da adesão do indivíduo. Segundo a fonte original, existem casos onde, mesmo com moradia garantida, o indivíduo retorna às ruas devido aos vínculos afetivos e de cumplicidade construídos com o grupo social, a chamada “maloca”.

Perspectivas para a reintegração social

O enfrentamento da situação de rua em Salvador envolve uma rede articulada de órgãos, incluindo o programa Vida Nova e iniciativas estaduais como o Corra para o Abraço. A eficácia dessas ações, contudo, esbarra na necessidade de um olhar individualizado. A superação dessa condição não se resume apenas à oferta de abrigo, mas passa pela reconstrução de laços e pela vontade pessoal de mudança.

Enquanto Coroa almeja vencer a dependência, Denise foca no futuro dos netos e Márcio busca retomar sua carreira artística. Essas histórias reforçam que a população em situação de rua não é um bloco homogêneo, mas um grupo de indivíduos com planos, memórias e direitos que exigem políticas públicas sensíveis à singularidade de cada vida.

Fonte: bnews.com.br


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