A trajetória de amizade entre Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi serve como ponto de partida para uma imersão profunda na cultura afro-brasileira. A exposição 3 Obás de Xangô, em cartaz na CAIXA Cultural Salvador, no Solar Ferrão, utiliza um acervo diversificado para reconstruir o imaginário baiano e o papel fundamental das comunidades de axé na preservação de saberes ancestrais.
Com visitação gratuita até 6 de dezembro, a mostra reúne mais de 110 itens, incluindo fotografias, pinturas, cartas e documentos históricos. A curadoria, assinada por Tiago Sant’Ana e Mariana Vaz, propõe um diálogo entre o legado dos três homenageados e a produção artística contemporânea, destacando a importância das lideranças femininas negras na resistência contra o racismo religioso.
Estratégia de proteção e o papel das mães de santo
O título de Obá de Xangô, concedido aos três amigos pelo Ilê Axé Opô Afonjá, é apresentado na exposição não apenas como uma honraria, mas como parte de uma estratégia de salvaguarda. Segundo o curador Tiago Sant’Ana, a criação desse corpo de obás foi uma resposta sofisticada das mães de santo para proteger o candomblé em um período de intensa perseguição e estigmatização.
A mostra enfatiza que o protagonismo dessas mulheres foi essencial para a legitimação das tradições de matriz africana na esfera pública. Ao longo do percurso, registros de figuras como Mãe Aninha, Mãe Senhora e Mãe Stella de Oxóssi dialogam com as aquarelas de Carybé, revelando a força do matriarcado na manutenção da identidade cultural da Bahia durante o século XX.
Terreiros como centros de produção de conhecimento
Um dos pilares da exposição é a redefinição dos terreiros, que são apresentados como territórios de transmissão de saberes que transcendem a religiosidade. A curadoria organiza o conteúdo em núcleos temáticos que exploram áreas como fitoterapia, música, literatura, moda e filosofia, evidenciando que essas comunidades funcionam como centros vitais de produção intelectual e social.
Para Mariana Vaz, é fundamental evitar que a história da cultura afro-baiana seja reduzida à perspectiva dos três homens homenageados. A seleção das obras busca, portanto, valorizar a complexidade dessas matrizes, tratando os elementos do candomblé como pilares de uma rede de saberes que sustenta a sociedade, e não meramente como recursos estéticos ou folclóricos.
Diálogo entre gerações e novas perspectivas artísticas
A exposição estabelece uma ponte entre o passado e o presente ao colocar nomes consagrados, como Mestre Didi, Rubem Valentim e Pierre Verger, ao lado de artistas contemporâneos como Ayrson Heráclito e Ana Sant’Anna. Essa articulação se estende à música e à literatura, integrando produções de Caymmi a nomes atuais como BaianaSystem, Tiganá Santana e Itamar Vieira Jr.
Esta abordagem permite observar como as questões debatidas pelos 3 Obás de Xangô permanecem atuais, embora sob novas óticas. Tiago Sant’Ana ressalta que a presença de artistas negros contemporâneos na mostra marca uma mudança significativa: a autonomia na tradução de suas próprias vivências, dispensando a necessidade de olhares externos ou etnográficos. Para mais informações sobre a programação, consulte o site oficial da CAIXA Cultural.
Fonte: atarde.com.br
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