Triângulo, zabumba e sanfona são elementos fundamentais que definem o som do São João, uma das maiores festas culturais do Nordeste. A série de reportagens “Safra, sabor e sanfona”, produzida pelo Bahia Notícias, explora as nuances que tornam o festejo junino uma manifestação cultural significativa na Bahia, abordando as transformações na agricultura, na gastronomia e nas celebrações musicais.
Em entrevista ao Bahia Notícias, a educadora Sálua Chequer, mestra em Arte, Educação e Gestão Cultural, destaca a importância da religiosidade nas festividades, que trazem simbolismos profundos. O São João, associado a João Batista, remete a tradições pagãs europeias que celebravam a colheita, adaptadas pela Igreja Católica. A fogueira, por exemplo, simboliza o anúncio do nascimento de João e, consequentemente, de Jesus, conferindo ao santo um papel central nas celebrações.
A festividade, que chegou ao Brasil com os jesuítas e colonos portugueses, incorporou elementos indígenas e africanos, especialmente na dança e na música. Sálua enfatiza que o forró é tão significativo que, em muitos lugares, o evento é nomeado em sua homenagem. A música, segundo ela, desempenha um papel social importante, refletindo a vida e as tradições do povo.
Sálua também observa que as mudanças recentes na festa, com a predominância de mega-shows, têm impactado a coletividade e a autenticidade das celebrações. Ela critica a invasão de repertórios que não pertencem à tradição do São João e a perda de manifestações culturais, como as quadrilhas, que têm se tornado raras em grandes eventos.
O cantor Del Feliz, um dos principais nomes do forró na Bahia, explica que a relação entre o forró e o São João começou na década de 1950, com o surgimento de sucessos de Luiz Gonzaga. Ele menciona a cidade de Entre Rios como um marco na intensificação dos festejos juninos, onde eventos gratuitos atraíam grandes nomes da música nordestina.
O forró, que recebeu o título de Patrimônio Cultural do Brasil em 2021, passou por diversas transformações ao longo dos anos. Embora novos estilos tenham surgido, o interesse mercadológico fez com que o gênero se afastasse de suas raízes. Del ressalta que a cultura é dinâmica e deve ser entendida em seu contexto, sem demonizar as mudanças.
O Fórum do Forró de Raiz, um movimento nacional que busca preservar a tradição do forró, foi fundamental para o reconhecimento das Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Cultural do Brasil. Fábio Barros, representante do movimento na Bahia, destaca a importância desse reconhecimento para fortalecer a luta por políticas públicas que valorizem o forró como uma expressão cultural essencial da identidade nordestina.
O Fórum defende que os festejos juninos, especialmente os financiados com recursos públicos, devem preservar a identidade cultural do São João. Embora reconheçam a diversidade musical, enfatizam que o forró deve ocupar um papel central nas programações juninas. Barros menciona a tramitação de leis que buscam garantir um percentual mínimo de recursos para artistas de forró, mas observa que a implementação dessas leis ainda enfrenta desafios.
Del Feliz argumenta que o forró não deve ser visto como um gênero sazonal, mas como uma expressão cultural perene que representa o Nordeste e a brasilidade. Ele destaca que o forró é apreciado em todo o mundo, com pessoas de diferentes nacionalidades se envolvendo com a música.
Recentemente, a situação do forró no São João gerou polêmica, especialmente após o cantor Flávio José cancelar suas apresentações na Bahia em protesto contra a desvalorização das atrações tradicionais. Del enfatiza a necessidade de resgatar a identidade da festa, argumentando que uma celebração autêntica atrai turistas e gera lucro, defendendo que os cachês dos artistas tradicionais não são o problema, mas sim a falta de investimento na preservação da cultura.
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