Alvo da operação Miragem da Polícia Federal, o banco Digimais recebeu um aporte financeiro do Grupo Record, totalizando cerca de R$ 2 bilhões em caixa. O investimento foi realizado pela controladora Digimais Participações, que pertence à B.A. Empreendimentos Participações, uma holding do Grupo Record. O aporte incluiu depósitos com CDBs (Certificados de Depósito Bancário) do controlador e uma parte captada no mercado por meio desses títulos, conforme informações de fontes ouvidas pela Folha.
Esse aporte está vinculado às negociações com o FGC (Fundo Garantidor de Crédito) para a venda do banco. Um novo investimento poderá ser feito pelo controlador enquanto a negociação com o BTG Pactual não se concretiza. As duas instituições financeiras firmaram um acordo de intenção de compra em abril deste ano. O Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da RecordTV, é suspeito de manipular relatórios financeiros para ocultar sua real situação e aparentar solidez perante os órgãos reguladores.
As investigações apuram crimes como gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em relatórios e a realização de empréstimos e financiamentos proibidos por lei, com o objetivo de evitar manipulações. Um dos focos da investigação é a compra de precatórios, que são títulos de valores a receber em sentenças judiciais contra o Estado. Na operação, deflagrada na última terça-feira (23), foram expedidos nove mandados de busca e apreensão contra diretores, conselheiros e empresas ligadas ao Digimais. Também houve bloqueio de bens de até R$ 670 milhões e a quebra de sigilo bancário e fiscal dos alvos.
Em um comunicado ao mercado na noite de quarta-feira (24), após exigência da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), o BTG Pactual não descartou a possibilidade de seguir com a compra do Digimais, mesmo após a operação da Polícia Federal. No entanto, o banco de André Esteves ressaltou que a transação depende do lançamento de um processo competitivo e da declaração de sua proposta como vencedora, condições que ainda não foram atendidas.
Uma nova regra do FGC estabelece a realização de um leilão para operações de salvamento de instituições financeiras que necessitam de socorro. O preço do leilão é determinado pela proposta que oferecer a maior economia ao FGC, visando minimizar os custos em caso de eventual quebra de um banco. O BTG analisou as condições do Digimais e apresentou uma oferta de referência, mas o leilão ainda não ocorreu. Fontes indicam que uma das condições para a proposta é a necessidade de um aporte maior por parte do bispo Macedo.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, não forneceu detalhes sobre as razões para o leilão ainda não ter sido realizado. Em entrevista coletiva, ele afirmou que o leilão é conduzido pelo FGC, que não comenta casos específicos. Ao ser questionado sobre a capacidade do Digimais de continuar operando após a operação da PF, Galípolo reiterou que o Banco Central não se pronuncia sobre instituições específicas sob sua supervisão.
Após o escândalo do Master, que afetou o BRB (Banco de Brasília) e outras instituições financeiras, o presidente do BC tem destacado que a decisão de liquidar um banco não é uma penalização por condutas inadequadas. Ele alertou que os correntistas são os mais prejudicados e que há confusão entre investigações criminais e liquidações. No caso do Master, mesmo com fraudes identificadas, o BC decretou a liquidação extrajudicial apenas em 17 de novembro do ano passado, quando o banco de Daniel Vorcaro não tinha mais recursos para cumprir suas obrigações, possuindo apenas R$ 4 milhões no dia da liquidação.
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